“Restou-me a esperança de outra vez” nos reencontrarmos…

“Luzes que brilham juntas

Velas que juntas queimam no altar da esperança

Trilhos que juntos percorrem os mesmos dormentes

E vão terminar no mesmo lugar” (Padre Zezinho)

Igreja, local de comunhão, onde vamos para alimentarmos a nossa alma e conviver em comunidade, formada por seres humanos dos mais diversos; e diante do altar do Senhor somos amados igualmente, e levados pelo mesmo sentimento de união, fraternidade, espiritualidade, e juntos construímos nossa saúde mental e espiritual diante das relações interpessoais que realizamos.

Era o 3º Domingo da Quaresma, contemplávamos a dificuldade do coração daqueles que não são capazes de perceber a ação de Deus na humanidade, em todos os momentos, como descrito no livro do Êxodo lido naquela celebração, o povo hebreu caminhava rumo a terra prometida, porém reclamava da falta de água, nascendo a revolta contra Moisés e contra o Senhor, “Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede, a nós, nossos filhos e gados?” (Êx, 17, 3).

A liturgia e o momento em que o mundo está vivendo estavam intimamente interligados, onde todos se veem ameaçados por um vírus (Covid-19), uma ameaça invisível, que alterou toda forma de relação social, e nos encorajando para vencer a batalha do medo. Através daquele Evangelho, onde ao matar a sede da Samaritana, Jesus nos mostra o seu anseio para construir uma aproximação íntima com Ele, nos apresentando como a água geradora de vida: “Respondeu Jesus: ‘Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna’. ” (Jo 4, 13-14). Nos mostrando que mesmo diante da infidelidade do povo, o Senhor permanece fiel, providenciando a esperança, o apoio e a água viva, simbolizando renovação.

No final daquele dia ficou fixado que estaríamos com as celebrações, movimentos e atividades suspensas, teríamos que nos resguardar em nossas casas, em oração.

Os agentes da PASCOM, juntamente com seus padres, se viram diante de um grande desafio, comunicar, levar e transformar as casas dos fiéis em verdadeiras Igrejas Domésticas. Nesta sociedade marcada pelo individualismo, utilitarismo, pela falta laços afetivos, começamos a trilhar o conceito de Igreja, assumido através do nosso Batismo, que é a Igreja doméstica, onde somos levados a transformar as nossas casas em uma pequena Igreja, celebrando e cultivando a água viva que é Cristo.  Achamos o meio. Alívio, porém, suspense. Como será? Será que íamos nos adaptar? E a comunhão? Tantas perguntas no coração do povo, comunidades marcadas pela participação e unidade.

A primeira transmissão pelos nossos canais deixara todos ansiosos. Ah, quando chegamos para transmitir, como não se emocionar, altar com poucas pessoas, o eco repetindo as palavras do padre ao fundo. Ao final, ao mostramos os bancos vazios, as lágrimas escorreram, então paramos para pensar quanto tempo ficaríamos assim. Porém, ao encerrar aquela Celebração, a tristeza se misturou a alegria, foram mais de 750 visualizações pelas redes sociais, conseguimos manter a comunhão e a unidade de todos, através da tela de um celular e das rádios.

E assim foram passando os dias, as notícias surgindo, as autoridades impondo limites, os especialistas discutindo soluções, o povo estava perdido, tanto físico como espiritualmente.  Ah! Quanta alegria nas celebrações, recebíamos mensagens e fotos pelas redes sociais das pessoas se arrumando, arrumando suas salas, forrando a mesa/estante, abrindo a Bíblia, acendendo uma vela, todos reunidos. O jantar era mais cedo, colocavam o celular carregar, os pais pediam silêncio, e quando o sino batia, todos já sabiam que era o anúncio, como aquele que Maria recebeu, Jesus Cristo estava chegando até você.

Com os dias, estavam todos atentos com a chegada da Semana Santa, e nossos encontros, procissões, velas, Domingo de Ramos (ansiosos com a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém), o encontro de Nossa Senhora das Dores e Nosso Senhor dos Passos, a missa da Ceia do Senhor (próprio Cristo entregando seu Corpo e seu Sangue para nós pecadores), Lava-Pés (nos ensinando a humildade e o amor ao próximo), e o Beijo da Cruz, o choro das matracas, o silêncio e a oração. Afinal, e a Vigília, o fogo novo, e nossa Missa de Páscoa, a partilha após a missa, vibrando Cristo Ressuscitado.

Mas conseguimos transmitir a mensagem da Semana Santa da mesma forma, juntos contemplamos todo o Mistério Salvífico de Cristo dentro de sua Igreja. Não percorremos as ruas em multidões, mas Cristo em Espírito ia, vivemos a fé em sua totalidade, e não nos mostramos duvidosos como o povo hebreu, mas certos na Páscoa do Senhor.

Jesus entrou em cada casa no Domingo de Ramos, casas, ruas, pontes, o povo preparou com alegria a acolhida de Jesus, assim como foi a sua chegada em Jerusalém, enquanto o padre passava pelas ruas abençoando os ramos, mais lágrimas, mas todos entoando o  mais belo hino de acolhimento do Senhor:

“Ele é o Santo, Ele é o filho de Maria,

Ele é o Deus de Israel, Ele é o filho de Davi
Santo é o seu nome, é o Senhor Deus do Universo
Gloria a Deus de Israel nosso Rei e Salvador”.

Sim… Sim… Vivemos uma Semana Santa maravilhosa, talvez a mais importante da década em nossa Igreja, porque aprendemos a contemplar a beleza de Jesus na simplicidade, na humildade, reconhecendo que o Senhor Jesus Cristo mesmo diante dos seus sofrimentos, medo, mostrou seu amor e preocupação pelos homens, mostrando a nossa mediocridade diante do que vinha ocorrendo em nosso país, a preocupação maior pelo dinheiro, esquecendo os irmãos que agonizavam de medo, porém encontraram em Jesus, o mesmo que as mulheres de Jerusalém, na subida pelo calvário encontrou, uma mensagem de esperança, como nos disse Papa Francisco, afirmando que “como os discípulos, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furiosa, e nos damos conta de estar na mesma barca, todos frágeis e  desorientados, mas, ao mesmo tempo, importantes e necessários, todos chamados a remar juntos, todos precisando de encorajamento mútuo. Nesta barca estamos todos.”


A cada momento vivenciado compreendíamos o quão ridículo seria dizer um “Obrigado Senhor”, por que precisávamos perceber que a nossa vida está nas mãos de Cristo, e que somos meros pecadores em busca da água viva, parar fortalecer a nossa fé, nossas famílias, unir mais a nossa Paróquia, pastorais e movimentos. Para aprendermos a valorizar os nossos profissionais da saúde (médico, enfermeiros, técnicos em enfermagem, auxiliares de limpeza, etc), a educação em nosso país (falta de incentivo dos governantes para as pesquisas e estruturas laboratoriais), os trabalhadores dos segmentos essenciais, responsáveis pela limpeza urbana, policiais, dentre outros que trabalharam diante do medo que os cercava.

Acredito, que nós agentes da PASCOM e os padres de toda a Diocese de Caratinga, estamos revigorados, alimentados de muita gratidão. Nosso profundo agradecimento, a todos os nossos irmãos de fé, que mesmo em isolamento social, estão presentes em todas as nossas transmissões, isso nos fortalece nos mantêm firmes e perseverantes na missão de anunciadores do Reino, e que todos nós continuemos unidos sobre a proteção de Maria, Mãe da Igreja, que Deus nos proteja. Em breve, estaremos juntos.

[…]Daqui do meu lugar,
Eu olho o teu altar,
E fico a imaginar aquela paz, aquela comunhão[..]
[…] Criaste a religião do pão da paz, da paz que vem do céu.
Somos a Igreja da paz, da paz partilhada e do abraço e do pão. (Padre Zezinho)

Cainã Vínicius Silveira Melo- Agente da Pascom

Paróquia Santo Estêvão, Iapu/MG