Fraternidade e diálogo: compromisso de amor

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Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade (Ef 2, 14a)

A Campanha da Fraternidade de 2021 é ecumênica, portanto organizada por uma parceria entre CONIC – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil e CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Esta é a 5º Campanha da Fraternidade Ecumênica; as quatro anteriores aconteceram em 2000, 2005, 2010 e 2016.

O ecumenismo – busca de diálogo afetivo e efetivo entre as Igrejas cristãs – é uma importante marca do Concilio Vaticano II. Este Concílio aconteceu entre os anos 1962 e 1965 e seus dezesseis documentos representam a mais importante manifestação do Magistério da Igreja nos últimos tempos, afinal, os documentos são o resultado da participação dos Bispos do mundo inteiro, foram aprovados e promulgados pelo Papa da época, Paulo VI e constantemente confirmados pelos Papas posteriores: João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Para este ano a CFE – Campanha da Fraternidade Ecumênica – estabelece como objetivo geral convidar “as comunidades de fé e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade”. Entre outras coisas, é interessante destacar neste objetivo o desejo de superar polarizações e violências através do diálogo amoroso; usar o diálogo (não qualquer, mas o amoroso!) como instrumento de superação de dois males que tanto incomodam e afetam nosso tempo: a polarização e a violência.

Tendo como referência o texto bíblico dos discípulos que voltam para Emaús depois da morte de Jesus e recebem como companhia de caminhada o próprio Jesus-Ressuscitado, o texto-base da campanha é um convite à reflexão crítica de nossa realidade de caminhantes, muitas vezes desolados e assustados; um convite à experiência com Jesus e sua prática de partilha que faz o coração arder com a esperança-certeza de um mundo melhor.

A sociedade tem apresentado sinais e sintomas indicadores de graves doenças: a escancarada desigualdade e a estratificação racial, econômica e social evidenciadas pela pandemia de COVID-19; a cultura da indiferença e de falta de empatia; o aumento do desemprego e da pobreza; o desvio do dinheiro da saúde, educação, moradia, geração de emprego e renda para o sistema financeiro; o aumento da violência contra mulher – especialmente negra – e contra as populações LGBTQI+; a prática da necropolítica que cria narrativas que justificam o descaso com a vida e a consequente morte de muitas pessoas; a morte de ativistas de direitos humanos etc. Não é possível que estas e outras realidades dolorosas não incomodem o coração dos cristãos e cristãs das diversas igrejas; não é possível continuar proclamando Cristo como nossa Paz sem propor e construir algum tipo de enfrentamento dos sintomas e de cura das doenças sociais que geram sofrimento e morte!

A pedagogia de Jesus nos ensina a observar, entre outras, duas coisas importantes: profundo senso de realidade e amorosidade nos encaminhamentos. Estas coisas são importantes porque nos ajudam a evitar as armadilhas. O povo do Êxodo, por exemplo, diante das dificuldades, acreditava em absurdos: voltar para a condição de escravidão é melhor que passar dificuldade no deserto!

Duas armadilhas bem convincentes rondam nosso tempo: Alguns acreditam que atacar o diferente – do ponto de vista religioso, de orientação sexual, de cor de pele, de posicionamento político etc. é uma boa saída; outros defendem que o uso da violência é o caminho para o combate da violência, logo, se eu me preparar para ser mais rápido no uso da violência que o outro que pretendia me atacar, será uma maravilha!

Voltando à pedagogia de Jesus: profundo senso de realidade e forma amorosa de propor novos caminhos. A CFE, após criteriosa análise de nossa realidade, se levanta em favor do diálogo respeitoso, afetuoso e amoroso como estratégia de enfrentamento das durezas de nossa realidade. Na base do diálogo está a certeza de que todas as pessoas nascem do mesmo ato amoroso do Deus-Criador, logo, há uma igualdade fundamental que nos irmana na fonte, na origem. Todos somos – independente das diferenças que possuímos ou construímos – humanos na mesma medida. As diferenças devem nos aproximar e não nos distanciar.

Por fim, ao nos inspirarmos em Jesus, aprendemos que ele construía pontes e não muros. As pontes construídas por Jesus permitiram que ele interagisse com doutores da lei, fariseus, prostitutas, cobradores de impostos, samaritana e com tanas pessoas que jamais teriam conseguido usufruir de sua companhia transformadora. Ao construir pontes, Jesus dava às pessoas o sagrado direito de tocarem nele e de serem tocadas por ele; ao quebrar muros permitia a fluidez das relações e o consequente milagre da salvação que começa aqui e agora.

O diálogo é uma ponte. Que não tenhamos medo de usá-lo para que entre nós haja encontros e unidade na diversidade.

José Luciano Gabriel – Professor, Advogado, Diácono – www.jlgabriel.com.br

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