ESCUTAR, DIFERENTE DE OUVIR?

Breve reflexão a partir de um fragmento da vida de Santo Eymard

 

                                                           Mas há uma única maneira de escutar realmente, que é escutar sem a

                                                           ‘tagarelice’. (Krishnamurti).

 

Em tempos de constantes mudanças, se faz necessário uma escuta atenta. Por isso, queremos te convidar a uma reflexão que nos ajude a escutar mais, tendo o ouvido no coração de Jesus Cristo.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, escutar é “1 t.d. estar consciente do que está ouvindo <conversando na praia, ouvia o mar, mas não o escutava> <escutava os cães a distância>   2 t.d. ficar atento para ouvir, dar atenção a <escutava com paciência aquelas queixas> 3 t.d.int. esforçar-se para ouvir com clareza […].” (HOUAISS, 2001, p. 1213).

Já o sentido de Ouvir é “1 t.d. perceber (som, palavra) pelo sentido da audição; escutar <o. música> <ouviu o que ele disse?> 2 t.d. dar atenção a; atender, escutar <ouviu os rogos do povo> 3 t.d. levar em conta; considerar <ouça bem o que ele tem a dizer>[…]. (HOUAISS, 2001, p. 2094).

A partir da observação dos termos, pode-se inferir que ouvir é ter a percepção dos sons, da palavra dita. Para além do ouvir, pode-se dizer que temos o escutar, e este aponta para as entrelinhas dos sons. Em meio as rotinas diárias, ouve-se vários sons e pessoas, contudo o escutar exige atenção. É o ouvir com clareza, é ir para além do dito. Vários autores misturam os termos, hora dando mais ênfase a um, hora a outro.

Em São Pedro Julião Eymard[1] a escuta era algo bem peculiar. Conta-nos o autor e Religioso Sacramentino Padre Guitton que em um dado momento o menino Eymard “desapareceu”, deixando sua família logicamente aflita e na busca “[…] ficou a lembrança da fuga do menino, que foi procurado por toda parte […] sua irmã o encontra sobre a escada, atrás do altar; […] que fazes aí? […] Estou perto de Jesus e o escuto. Pedro Julião devia ter quatro ou cinco anos. ”  (GUITTON, 1997, p. 24). Nos chama a atenção a atitude do pequeno Eymard que vai ao encontro para escutar, mesmo que levemos em conta a fragilidade historiográfica do feito o que “nem sempre é fácil selecionar neste abundante gênero de hagiografia” (GUITTON, 1997, p. 24); a referência nos apresenta alguém que desde muito cedo busca um contato íntimo, uma escuta do outro, do transcendente. Ele seguirá escutando e desenvolvendo-se num trabalho pessoal de encontro consigo, com o outro e com Deus.

Quando se escuta uma pessoa, pode-se perceber dimensões da mensagem, percebe-se as palavras em seu sentido, ou seja, o que está por trás do que está sendo verbalizado através da voz e seu timbre; dos gestos enquanto expressões facial e corporal, da intensidade do ser que se expressa. Pode-se dizer que é o outro que se expressa em sentimento, mostrando sua intensidade enquanto ser humano. Pela escuta, mesmo uma pessoa que não verbaliza, pode comunicar. É isso que acontece quando você convive muito tempo com alguma pessoa, vocês começam a se conhecer pela abertura do contato e, assim, começarão a se comunicar também a partir dos gestos, do olhar. Indo a escuta para além do ouvir.

Nesta perspectiva, Doeblin apresenta o pensamento vivo de Confúcio, dizendo que: “Quando a inteligência não se torna presente, olhamos e não vemos, ouvimos e não escutamos, comemos e não sabemos o gôsto (sic) do que comemos. ” (CONFÚCIO apud DOEBLIN, 1965, p. 46). Esse pensamento do filósofo Confúcio colabora para explicitar a importância da escuta, diz ele que, quando a “inteligência não se torna presente, ouvimos e não escutamos”, esse movimento de ouvir e não escutar é muito comum na contemporaneidade, as pessoas com o evento da globalização vivem em um dinamismo intenso e com a informatização e a facilidade dos meios tecnológicos de comunicação o que mais se observa, de fato, é essa agitação para fora de si mesmo. As pessoas tendem a fazer várias coisas ao mesmo tempo o que é necessário muitas vezes, contudo, não utilizam a “inteligência presente” que se pode traduzir como o estar inteiro aqui e agora, escutando. Seria o colocar a face no coração de Deus. Escutar a Jesus Cristo como fez Santo Eymard.

Como somos frutos da história e ela demora para se modificar, urge na contemporaneidade pessoas que escutem, que sejam pontes para “travessias” mais seguras. Em tempos de crises tão acentuadas como a que estamos vivenciando nestes tempos é fundamental ter empatia, lucidez, abertura ao diferente (que pode estar em tua casa e tu nunca escutou), cooperação, respeito com todos e muito amor principalmente com os mais fragilizados.

Finalizamos reafirmando o convite à que você escute mais, se escute mais, escute o cosmos e as revoluções que estão acontecendo e de tudo isso tire para você algo significativo. Uma escuta que ecoe como mensagem de amor e vida no seu coração como fez Eymard, que sobre a escada, atrás do altar, ele escutou melhor a Jesus. Aí da sua casa, em algum cantinho, você também é capaz de escutar a Jesus Cristo. Aproveite esse tempo de Salvação!

 

Irmão Elissandro Santana, SSS

Referências Bibliográficas:

DOEBLIN, Alfred. Biblioteca do pensamento vivo de Confúcio. Tradução Oscar Mendes. São Paulo: Martins, 1965.

GUITTON, André. Pedro Julião Eymard: O Apóstolo da Eucaristia. São Paulo: Editora Vozes, 1997.

HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 

Site:

Vatican News –  Disponível em:<<https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/08/02/s–pedro-juliao-eymard–sacerdote-fundador-dos-sacramentinos.html>>. Acesso em: 23 de março de 2020.

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[1] Em maio de 1856, em Paris, fundou a Congregação do Santíssimo Sacramento. Foi canonizado pelo Papa João XXIII em 1962. Disponível em:<<https://www.vaticannews.va/pt/santo-do-dia/08/02/s–pedro-juliao-eymard–sacerdote-fundador-dos-sacramentinos.html>> acesso em: 23 de março de 2020.