DEUS E A DOR: O QUE NOS DIZ JÓ?

As questões “por que o ser humano sofre?” e “quem é esse Deus (pressupondo a sua existência) que permite o sofrimento humano?” são sempre atuais, porque são existenciais. O livro de Jó, conectando o sentido do sofrimento e a teodiceia, permite refletir sobre essa problemática. Nele, “o poeta serve-se do mistério do sofrimento para sondar o mistério de Deus” (TEB, 1994, p. 1169): “através de seus sofrimentos, Jó descobriu um Deus diferente daquele em quem acreditava até agora” (KINET, 1983, p. 48).

O drama se inicia quando Deus permite ao Satã que prove o desinteresse da integridade religiosa e moral de Jó, sem, contudo, tirar-lhe a vida. O sofrimento tornou-se o meio mais viável para se verificar sua fé e retidão. Jó, “o mais rico de todos os homens do Oriente” (1,3), perdeu (quase) tudo: bois, mulas, ovelhas, camelos, servos e, inclusive, seus filhos. Expressando sua dor, “rasgou seu manto, raspou sua cabeça, caiu por terra, inclinou-se no chão” (1,20). Por, ainda, ter parecido pouco, o próprio Jó foi ferido “com chagas malignas desde a planta dos pés até o cume da cabeça” (2,7b). Jó ficou irreconhecível. Ele, que, em seu sofrimento, num primeiro momento se resignou, acabou se prorrompendo num grande clamor de súplica, de desespero: “Sucede-me o que mais temia, o que mais me aterrava acontece-me. Para mim, nem tranquilidade, nem paz, nem repouso: nada além de tormento” (3,25-26). Por isso, desejou a morte como alívio e amaldiçoou seu nascimento e seu crescimento.

Nessa desgraça, pesou-lhe, ainda, a falta de misericórdia de seus amigos, seus “consoladores importunos” (16,2), que lhe incriminaram falsamente, com palavras duras e sem sentido: “No infortúnio, o desprezo!, dizem os que estão felizes, um golpe a mais para quem titubeia” (12,5). Sentiu-se só. Desprezaram-no, afastando-se dele e o insultando (cf. 19, 13-21). Jó poderia fazer seu o salmo 88 (87). Seu desabafo é um grito de dor: “Se falo, não cessa minha dor; se me calo, como ela desaparecerá?” (16,6). Ele apelou, portanto, à Justiça divina, para que se manifestasse sua inocência. Queria comparecer em juízo diante de Deus, a fim de defender sua causa. Para ele, porém, não havia angústia maior que o silêncio de Deus:

O poeta de Jó fala à humanidade de todos os tempos, porque não somente enfrentou o escândalo da existência e da morte, mas também retratou o homem de fé que, na agonia, raia a blasfêmia e, ao mesmo tempo, busca a presença de um Deus que ama. Para ele, o silêncio divino é o sofrimento último. (TEB, 1994, p. 1168).

No ímpeto de justificar esse sofrimento, surgem muitos “porquês”, baseados em diferentes imagens de Deus. Os três amigos que discutem com Jó – Elifaz de Temã, Baldad de Suás e Sofar de Naamat –, representantes da sabedoria tradicional da retribuição, entendem que os males sobrevindos a Jó resultam de seus pecados, de sua impureza, de seus erros, porque Deus é sábio e é justo, “retribui ao homem segundo suas obras, e dá a cada um conforme sua conduta, [pois] na verdade, Deus não pratica o mal, Shaddai não perverte o direito” (34, 11-12). Se Deus não erra, Jó está sofrendo a condenação dos ímpios; resta-lhe, apenas, converter-se, para que Deus mude sua sorte. Esta concepção, fundada na justiça divina, incorre no condicionamento de Deus ao humano, reduzindo-o a um deus mercenário. Eliú, que se arroga mais sábio do que estes, compartilha da mesma visão; mas, por outro lado, também aponta, conforme Kinet (1983, p. 49), para “o poder absoluto e inexplicável de Deus criador […] a quem nada é oculto”, o qual determina o que é justo e não é tão indiferente aos homens, suas criaturas, pelos quais não pode ser medido; Eliú apresenta, ainda, uma novidade ao entender o sofrimento como pedagogia e método de salvação por parte de Deus:

A transcendência e excelsitude de Deus, um tema predileto de Eliú, é agora apresentada em duas aproximações. Deus usa soberanamente do seu poder, que não lhe foi dado por ninguém. […]. A pedagogia do sofrimento de Eliú adapta-se à ideia de Deus como mestre. Com este mestre, ninguém pode medir-se. (HEINEM, 1982, p. 114).

Jó, por sua vez, em suas respostas, expressa alguns pontos em comum com os discursos de seus interlocutores, como a afirmação do poder e da sabedoria de Deus Criador. Jó acredita na Providência do “Deus vivo” (27,1), capaz de escutá-lo e de atendê-lo, o qual criou, conduz e governa o mundo, e cujo poder e sabedoria são incomparáveis: “Quem entre os mais sábios e mais fortes poderá resistir-lhe impunemente? Ele desloca as montanhas, sem perceberem, e derruba-as em sua ira. Faz prodígios insondáveis, maravilhas sem conta. Se cruzar por mim, não posso vê-lo, se passar roçando-me, não o sinto” (9,4-5.10-11). Em sua angústia, Jó firma-se em sua fé no cuidado de Deus, o qual é capaz de dar ou de tirar (cf. 1,21b): “Tuas mãos me formaram e me modelaram, e depois te volves a mim para aniquilar-me? Deste-me a vida e o amor e tua solicitude me guardou” (10,8.12); ao qual tudo pertence: “Quem não haveria de reconhecer que tudo isso é obra da mão de Deus? Em sua mão está a alma de todo ser vivo e o espírito de todo homem carnal” (12,9-10); o onisciente: “Vigias todos os meus passos e examinas minhas pegadas” (13,27b); o conhecedor da fonte da Sabedoria: “Ele possui a sabedoria e o poder, dele é o conselho e o discernimento” (12,13). “Donde vem, pois, a Sabedoria? Onde está o lugar da inteligência? Só Deus conhece o caminho para ela. Só ele sabe o seu lugar” (28, 20.23).

Jó, porém, não aceita a sabedoria de seus amigos, nem a de Eliú, porque, se assim fosse, Deus não seria justo, mas arbitrário; além de a doutrina da retribuição não condizer com a realidade, onde bons sofrem e maus vivem felizes (cf. Jó 21). Embora o leitor saiba que o Satã foi o causador dos males, para Jó a culpa é de Deus: “Foi Deus quem me transtornou envolvendo-me em suas redes” (19,6). Sente que Deus se tornou seu inimigo: “Clamo por Ti, e não me respondes; insisto, sem que te importes comigo. Tu te tornaste meu verdugo e me atacas com teu braço musculoso” (30,20-21). Por isso, quer se encontrar com Deus, apresentar sua queixa a Ele, para que se manifeste Sua justiça: “Gostaria de saber com que palavras iria responder-me e ouvir o que teria para me dizer” (23,5). Neste debate judicial, conta com o auxílio de uma testemunha: “Tenho desde já uma testemunha nos céus e um defensor nas alturas” (16,19). Para Heinem (1982, p.61), trata-se do próprio Deus: “Perante a realidade de Deus, cheia de tensões, ao homem de fé só resta a esperança de que ‘o Deus amigo’ vença ‘o Deus inimigo’”. Nesta crise, Jó se agarra na fé em Deus, o go’el, o libertador de seu povo e vingador dos oprimidos, que se erguerá como testemunha a ele favorável e, ao qual, anseia por contemplar: “Eu sei que o meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó: quando tiverem arrancado esta minha pele, fora de minha carne verei a Deus” (19,25-26).

Jó, que sempre buscou agir com justiça (cf. Jó 31) e perseverou em sua fé, apesar de sua aflição e incompreensão, foi atendido por Deus. YHWH[1] se manifestou a Ele e lhe respondeu. Jó se encontrou, pessoalmente, com Adonai. Sem dúvida, o clímax da obra. Afinal, qual é a palavra de Deus ao sofredor?

“Iahweh respondeu a Jó, do seio da tempestade” (38,1), um sinal de sua “assombrosa majestade” (37,22). Ele não inocentou nem culpou Jó, mas entendeu que tudo o que se disse foram “palavras sem sentido” (38,2) e interrogou a Jó quanto à sua sabedoria em relação a toda a magnificência da criação: “Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra? Dize-mo, se é que sabes tanto. Deverias sabê-lo, pois já tinhas nascido e grande é o número de teus anos” (38,4.21). Deus continua elencando a grandiosidade da obra de suas mãos e os mistérios de sua sapiência, descritos, inclusive, em termos de cuidado para com suas inúmeras criaturas, e insiste quanto ao saber de Jó perante tudo isso. Deus, com fina ironia e servindo-se de diversas imagens, assevera sua soberania e poder. Ele tudo domina. Nas palavras de Ana: “Não há santo como é santo o nosso Deus, ninguém é forte à semelhança do Senhor!” (1Sm 2,2); ou, ainda, nas do salmista: “Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra” (Sl 24,1). Ele está envolto em glória e majestade e é o único capaz de garantir a salvação. Reafirma-se, portanto, a partir da contemplação da criação, a ideia da transcendência e do poderio de Deus. A resposta de Jó? Reconhecendo sua ignorância e pequenez, fica sem palavras frente aos argumentos divinos: “Eis que falei levianamente: que poderei responder-te? Porei minha mão sobre a boca; falei uma vez, não repetirei; duas vezes, nada mais acrescentarei” (40,4-5). E responde, por fim: “Reconheço que tudo podes e que nenhum dos teus desígnios fica frustrado. Quem é aquele que vela teus planos com propósitos sem sentido? Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que me ultrapassam. Eu te conhecia só de ouvir, mas agora meus olhos te veem” (42,2-3.5).

De acordo com o livro de Jó, portanto, que se pode dizer sobre Deus? A resposta parece caminhar na linha das narrativas dos místicos. Só pode, realmente, “conhecer” a Deus, quem se encontra com Ele e o vê, penetrando em seu mistério. Assim, a verdadeira sabedoria consiste em reconhecer a limitação do conhecimento humano diante do mistério da existência e do mistério inefável do Deus vivo; em tampar a boca com a mão, isto é, em adorar, reconhecendo a grandeza incompreensível de Deus. Em uma instância, pode-se afirmar a onipotência, a sabedoria e a onisciência de Deus, Criador, Providente e Justo; quanto à Sua justiça, não se pode negá-la, nem condicioná-la. Ele é, em suma, transcendente, “totalmente outro”, “indisponível” (HEINEM, 1982), livre, inenarrável. Nenhuma palavra O define, nada O pode abarcar. É inefável. Ele é! Critica-se, por conseguinte, qualquer teologia que pretenda ser absoluta. Diante da imensidão de Deus e de seus desígnios, a humilde reverência!

Haja vista a inexplicabilidade da realidade e dos desígnios de Deus, o sofrimento continua, igualmente, enigmático. Na obra, “não se respondeu ao problema por que o justo deve sofrer. O sofrimento permanece um mistério, que não se consegue explicar racionalmente. Mas agora Jó pode conviver com o seu problema, sem nele quebrar a cabeça” (HEINEM, 1982, p. 137). Segundo Westermann (1983, p. 31), “através da figura de Jó, o autor-poeta ilustra o gravíssimo e desconcertante desafio que pode haver na aceitação do Deus desta realidade terrestre em vista do mar de sofrimento incompreensível e inexplicável”. Já Kinet (1983, p. 50) entende que, a partir do livro de Jó, só o encontro com Deus pode levar o sofredor a uma humilde submissão, a “aceitar resignado e emudecido o seu sofrimento. Todo discurso teológico sobre o sofrimento cai no vazio”.

Em síntese, essa conexão entre o drama do sofrimento humano e a imagem de Deus, no livro de Jó, parece ter sido bem descrita, de modo simples e poético, numa famosa canção cristã da atualidade: “Deus é Deus”. Por isso, é com um trecho dela que se conclui este breve artigo:

Se Deus fizer, Ele é Deus. Se não fizer, Ele é Deus. Se a porta abrir, Ele é Deus. Mas se fechar, continua sendo Deus. Se a doença vier, Ele é Deus. Se curado for, Ele é Deus. Se tudo der certo, Ele é Deus. Mas se não der, continua sendo Deus. Eu não O adoro pelo que Ele faz. Eu O adoro pelo que Ele é. Haja o que houver sempre será Deus. (MARÇAL, 2019).

 

(Higor Luiz Arantes Nepomuceno)

REFERÊNCIAS

BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Coord. José Bortolini. São Paulo: Paulus, 2002.

HEINEM, Karl. O Deus indisponível: o livro de Jó. São Paulo: Paulinas, 1982.

KINET, Dirk. O duplo sentido das representações de Deus e de Satanás no livro de Jó. In: MACKENZIE, R. DUSSEL, E. DUQUOC, CH. Jó e o silêncio de Deus. São Paulo: Vozes, 1983. p. 43-50.

MARÇAL, Delino. Deus é Deus. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=ybyIkyD4N_0>. Acesso em: 3 jun. 2019.

TEB – Bíblia Tradução Ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994.

WESTERMANN, Claus. A dupla face de Jó. In: MACKENZIE, R. DUSSEL, E. DUQUOC, CH. Jó e o silêncio de Deus. São Paulo: Vozes, 1983. p. 19-31.

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[1] Quanto aos nomes divinos usados no livro de Jó, consoante Heinem (1982): geralmente, nos diálogos, usa-se os nomes El, Eloah ou Shaddai, talvez por se tratar de conversa entre não-israelitas ou por se direcionar a todo crente, indiferentemente de onde habite. Quanto à presença do tetragrama sagrado nesta parte do texto, Heinem entende ser um apontamento para o início da história do povo de Israel, sobretudo para a teofania a Moisés.