Fraternidade e vida: dom e compromisso – viu, sentiu compaixão e cuidou dele (Lc 10,33-34)

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Campanha da Fraternidade 2020

Fraternidade e vida: dom e compromisso – viu, sentiu compaixão e cuidou dele (Lc 10,33-34)

José Luciano Gabriel *

Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas, sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: o colo que acolhe, / o braço que envolve, / a palavra que conforta, / o silêncio que respeita, / a alegria que contagia, / a lágrima que corre, / o olhar que acaricia, / o amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto ela durar (Cora Coralina. Poema citado no parágrafo 81 do texto-base).

O texto bíblico que serve de inspiração para as reflexões da campanha da fraternidade de 2020 é a narrativa do Bom Samaritano. A passagem demonstra que uma pessoa tinha sido vítima de assalto e restava caída à beira da estrada; passaram por aquela vítima um sacerdote e um levita (dois importantes religiosos da época) e não prestaram socorro; passou, todavia, um samaritano (os samaritanos eram malvistos na época) que desceu de seu cavalo, prestou os primeiros socorros, levou a pessoa ferida a uma hospedaria em sua própria montaria, cuidando, enfim, daquela vítima de assalto. A história tem o objetivo de ajudar na compreensão do significado de amor ao próximo: Quem é o próximo a quem se deve amar? Como se ama o próximo? Como se fazer próximo de quem precisa?

A primeira dica passa pela busca de um olhar que supere a indiferença com relação a toda e qualquer situação de sofrimento. O olhar de indiferença nos faz passar adiante sem fazer nada; faz-nos insensíveis à dor e aos sinais de morte; faz-nos desumanos.

A pessoa caída à beira do caminho está representada hoje por muitas situações: o desemprego que atinge mais de doze milhões de pessoas; as diversas ameaças à vida; o crescimento de casos de automutilação entre adolescentes e jovens e o aumento de suicídios; o alto índice de mortes por homicídio e feminicídio; o crescimento dos conflitos em torno da terra e da água; o sofrimento de órfãos e viúvas; a degradação ambiental gerada por algumas monoculturas e o uso excessivo de pesticidas; as consequências humanas e ambientais provocadas pela ruptura de duas barragens de rejeitos de minérios (Mariana e Brumadinho) etc.

Como cristãos e cristãs somos convidados a fazer uma escolha acerca de qual olhar queremos ter com relação às situações de sofrimento: queremos ser como o sacerdote e o levita que veem o sofrimento e passam adiante ou queremos ter o olhar de compaixão ensinado pelo samaritano? Queremos cultivar a indiferença ou o cuidado? Vamos descer de nosso ‘cavalo’ e cuidar das feridas de quem está caído pelo caminho ou simplesmente passar adiante? Nesta quaresma somos confrontados a vivenciar a conversão pessoal e social à luz destas escolhas e não dá para fingir que não entendemos, pois isso seria, consciente ou inconsciente, perpetuar o olhar da indiferença.

Uma segunda dica muito interessante implica o convite à mudança da lógica que deve reger a vida das pessoas que seguem Jesus Cristo, ampliando, inclusive, a noção de justiça que leva a fazer o bem ao outro em função de sua humanidade, não de seu merecimento ou de eventual obrigação nossa. Às vezes não temos obrigação de fazer algo para alguém, mas a compaixão e a ternura que cultivamos nos impulsionam a fazer à pessoa o que ela precisa e não que teria direito ou merecimento. Você se lembra dos trabalhadores que chegaram ao trabalho no final do expediente e receberam o valor do dia? O conceito de justiça extrapola a ideia de retribuição!

Uma terceira dica passa pelo cultivo da ternura e da sensibilidade. O sentimento de compaixão leva-nos a cuidar com ternura e suavidade. Somos chamados a deixar aflorar em nós a força de uma sensibilidade que enxerga nas entrelinhas das relações; que escuta para além das palavras e dos barulhos de nosso tempo; que sente com verdade e empatia as dores à nossa volta; que vê com os olhos de um coração compassivo, afinal, tudo aquilo que dói na gente certamente dói nas demais pessoas também. Sem o cultivo da ternura, o ódio, a justiça sem misericórdia, a verdade sem amor e os afazeres da vida justificarão que passemos adiante sem cuidar de nosso próximo e sem nos fazermos próximos de quem precisa de cuidado. O olhar da indiferença predominará em nós!

Por fim, antes de ser muito exigente e complexo, o cuidado é simples: conversar mais com as pessoas; celebrar com gratidão as pequenas coisas do dia a dia; confraternizar com as pessoas; ouvir sem julgar e respeitar os pontos de vista diferentes; perdoar quem nos magoou ou ofendeu e pedir perdão; buscar mais conhecimento e não propagar fake News; mudar hábitos que agridem a natureza (descartáveis, por exemplo); não se render… Ser carinhoso! Que tal?

* Diácono Permanente da Diocese de Governador Valadares/MG, Professor, Advogado. – e-mail: lugafap@yahoo.com.br

Texto disponível no Blog:jlgabriel.blogspot.com

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