Ver, sentir, cuidar e amar

Autor Redacao | Data 9 de fevereiro de 2020



Lá pelo fim dos anos 60, início dos anos 70, jornais e revistas começaram a dedicar mais atenção ao tema violência. No decorrer dos anos 70, assaltos brutais, tráfico de drogas e de armas, extermínios, homicídios e chacinas, praticados por policiais, bandidos ou pessoas comuns, multiplicaram-se em uma proporção assustadora. A década de 80 aprofundou essa tendência e na década de 90, o sentimento das pessoas que vivem nas cidades brasileiras é de medo e perplexidade diante da brutalidade de muitos crimes, assaltos e homicídios.

 

Mas, o grande espanto é com a aparente frieza e ausência de limites de dos atos praticados.  Como o caso, entre outros, de alguns jovens de classe média alta de Brasília, que atearam fogo ao corpo de um índio que dormia nas ruas da cidade. E, na tentativa de se defenderem perante a polícia, argumentaram que não sabiam que a vítima era um índio, que pensaram que era “apenas um mendigo” e que tinham jogado gasolina e posto fogo às suas vestes “por brincadeira”.

 

Vivemos e convivemos com isso em nosso cotidiano. No antigo testamento vemos quando Deus pergunta a Caim: “Caim, onde está o teu irmão? ”  A vontade de sermos mais, de sermos Deuses, nos sobe à cabeça. O sonho de ser poderoso, ser grande como Deus nos leva a um caminho de erros e, no final deste caminho está a morte, está o sangue de nossos irmãos derramados.

 

Onde está o seu irmão? Esta pergunta é direcionada para todos nós. Vemos todos os dias nossos irmãos tentando sair de situações difíceis, alguns dos vícios, outros de situações de fome e miséria, outros de problemas psicológicos devido a precariedade da vida que levaram. E o que fazemos? Nos escondemos, como fez Caim, ou ainda fazemos como o sacerdote e o levita (Lc 10, 25-37), passamos, vemos, as vezes até filmamos para colocarmos nas nossas redes sociais, dizemos: “ Coitado”, mas seguimos adiante. Não é responsabilidade nossa, isso basta para nos colocarmos em uma zona de conforto. “ Não é comigo”, como diz um dito pular: “ Pimenta nos olhos dos outros não arde”. O Papa Francisco em sua viagem a Lampeduza, Itália, disse: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas, mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa! ”.

 

Aos poucos vamos nos tornando desumanos, não somos capazes de perceber a dor do outro. A Campanha da Fraternidade 2020 vem para nos alertar quanto isso. Não podemos viver a vida passando longe das dores de nosso irmão. Temos que assumir a nossa essência Samaritana que só tem sentido se “vemos, solidarizamos e cuidamos”.

 

É necessário que nossas comunidades, pastorais, movimentos, Igrejas particulares possam se fortalecer no cuidado e zelo para com a vida em geral. Não dá mais para cultuarmos a indiferença. Já podemos perceber pequenas atitudes que saem em socorro da vida. Movimentos que pensam nos imigrantes, os recebem e os encaminham. Que acolhem os irmãos de rua, as mulheres e crianças em risco social, os idosos. Movimentos que pensam na situação dos encarcerados. No entanto ainda é pouco diante do muito que ainda é necessário fazer em uma sociedade onde o desrespeito a vida impera. Nós cristãos temos um compromisso com a vida, não com a morte. Temos que ver a imagem de Deus naqueles que mais necessitam. E não basta somente ver, não basta sentir, é preciso acolher é preciso agir. Temos que ser verdadeiros guardiões da vida! Deus nos deu um belo presente e é nosso dever cuidar; “ Eu vim para que todos tenham vida”. Santa Dulce dos Pobres foi capaz de ver no outro o rosto de Jesus, ela é o ícone desta Campanha da Fraternidade, pelo seu grande exemplo de amor ao próximo e a Deus. Jesus disse: “Ame ao seu próximo como a si mesmo” e Santa Dulce dos Pobres materializou este amor em sua vida.

 

Queridos leitores, encerro essa minha palavra deixando para vocês algumas palavras de Santa Dulce dos Pobres e pedindo a Deus que ao final deste período quaresmal, nossa diocese seja mais humana. “Devemos educar pelo amor. A gente vivi a vida de Cristo na pessoa do pobre. O amor supera todos os obstáculos, todos os sacrifícios. Por mais que fizermos, tudo é pouco diante do que Deus faz por nós” (Santa Dulce dos Pobres).

 

 

Dom Emanuel Messias de Oliveira

Bispo diocesano de Caratinga

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