ELEMENTOS PARA O ROTEIRO DA CELEBRAÇÃO
Na celebração da palavra sejam devidamente valorizados os seguintes elementos:
1º- Reunião em nome do Senhor;
2º- Proclamação e atualização da palavra;
3º- Ação de graças;
4º- Envio em missão.
O roteiro da celebração da palavra de Deus deve ser organizado de tal modo que favoreça a escuta e a meditação da palavra de Deus, a oração e o compromisso de vida.
RITOS INICIAIS
A celebração comunitária da palavra preparada e realizada num clima de acolhida mútua, de amizade, de simplicidade, de alegria e de espontaneidade, favorece a comunhão e a participação dos fiéis na escuta da palavra e na oração.
Quem preside a assembléia, com palavras espontâneas e breves, saúda e acolhe a todos e os introduz no espírito próprio da celebração, despertando na assembléia a consciência de que está reunida em nome de Cristo e da Trindade para celebrar.
A equipe de liturgia poderá iniciar a celebração com uma procissão, levando símbolos que expressem a realidade e a vida de fé dos presentes, entronizando a cruz, velas, bíblia e no tempo pascal, o círio.
O rito penitencial é um momento importante. Ele prepara a assembléia para escutar a palavra e para a oração de louvor. Tenha-se o cuidado para não prolongar este rito de modo desproporcional às outras partes da celebração. Em seguida vem a conclusão com a oração proposta.
HOMILIA OU PARTILHA DA PALAVRA DE DEUS
A homilia é também parte integrante da liturgia da palavra. Ela atualiza a palavra de Deus, de modo a interpelar a realidade da vida pessoal e comunitária, fazendo perceber os sentidos dos acontecimentos, à luz do plano de Deus, tendo como referencial a pessoa, a vida, a missão e o mistério pascal de Cristo.
Quando o Diácono preside a celebração da palavra, a ele compete a homilia. Na sua ausência, a explicação e a partilha comunitária da palavra de Deus cabe a quem preside a celebração.
Quando oportuno, convém que a homilia ou a partilha da palavra desperte a participação ativa da assembléia, por meio do dialogo, aclamações, gestos e refrões apropriados.
Por isso, a reflexão deve ser preparada com antecedência, para não ficar falando demais. O máximo que deve durar a reflexão é 10 minutos.
PROFISSÃO DE FÉ
O creio é uma resposta de fé da comunidade à palavra de Deus. Exprime a unidade da Igreja na mesma fé e sua adesão ao Senhor. Existem três formulas do creio: O símbolo dos apóstolos, O símbolo Niceno-constantinopolitano e a fórmula com perguntas e respostas como a encontramos na vigília pascal e na celebração do batismo.
ORAÇÃO DOS FIÉIS / ORAÇÃO UNIVERSAL
Momento, onde o povo exerce sua função sacerdotal. Nela, os fiéis pedem a Deus que a salvação proclamada se torne uma realidade para a Igreja e para a humanidade, suplicam pelos que sofrem e pelas necessidades da própria comunidade, da nação, da Igreja e seus ministros, sem excluir os pedidos de interesse particular das pessoas.
Após a oração dos fiéis pode-se fazer a coleta como expressão de agradecimento a Deus pelos dons recebidos, de co-responsabilidade da manutenção da comunidade e seus servidores e como gesto de partilha dos irmãos necessitados.
MOMENTO DO LOUVOR
Um dos elementos fundamentais da celebração comunitária é o “rito de louvor”, com o qual se bendiz a Deus pela sua imensa glória. Por meio deste, a comunidade reconhece a ação salvadora de Deus, realizada por Jesus Cristo e canta seus louvores.
A comunidade sempre tem muitos motivos para agradecer ao Senhor, seja pela vida nova que brota da ressurreição de Jesus, como pelos sinais de vida percebidos durante a semana na vida familiar, comunitária e social.
O momento da ação de graças ou de louvor pode realizar-se através de salmos, hinos, cânticos, orações litânicas ou ainda benditos e outras expressões orantes inspiradas na piedade popular. O momento de louvor não deve ter, de modo algum, a forma de celebração eucarística. Não faz parte da celebração comunitária da Palavra à apresentação das ofertas de pão e de vinho, a proclamação da oração eucarística própria da missa, o canto do Cordeiro de Deus e a benção própria dos ministros ordenados. Também não se deve substituir o louvor e a ação de graças pela adoração ao Santíssimo Sacramento.
ORAÇÃO DO SENHOR – PAI NOSSO
Esta oração pode ser situada em lugares diferentes conforme o roteiro escolhido para a celebração. A oração do Senhor é norma de toda a Oração do Cristo, pede o Reino, o pão e a reconciliação, e expressa o sentido da filiação Divina e da fraternidade. Evite-se sua substituição por cantos ou orações parafraseados. O pai-nosso pode ser cantado por toda a assembléia.
ABRAÇO DA PAZ
O abraço da paz é expressão de alegria por estar junto aos irmãos e irmãs, é expressão da comunhão fraterna, é importante portanto, que na celebração haja um momento para este gesto.
A COMUNHÃO EUCARÍSTICA
Nas comunidades onde se distribui a comunhão durante a celebração da Palavra, o Pão Eucarístico pode ser colocado sobre o altar antes do momento da ação de graças e do louvor, como sinal da vinda do Cristo, pão vivo que desceu do céu. Compete ao ministro extraordinário da comunhão distribuir a sagrada comunhão, se não houver diácono em número suficiente, que as necessidades pastorais o exigirem.
Nas comunidades onde não há distribuição de comunhão, este pode ser um bom momento para alguma ação simbólica, como: Partilha do Pão, recebimento do dízimo, coleta de donativos em vista de ajuda aos necessitados da comunidade.
RITOS FINAIS – COMPROMISSO
Valorizar os avisos e as notícias que dizem respeito à vida da comunidade. A benção é um ato de envio para a missão e de despedida com a graça de Deus. É de suma importância que todos retornem às suas casas e ao convívio social, com um compromisso, com esperança, com a experiência de terem crescido na fraternidade e com a decisão de ser testemunho
AS PARTES DA CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
Pe. Ademilson Tadeu Quirino
A missa compõe-se das seguintes partes: A) Ritos iniciais; B) Liturgia da Palavra; C) Liturgia Eucarística; D) Ritos finais. É importante que saibamos reconhecer estas diversas partes, que formam a espinha dorsal da celebração, pois é no interior deste esquema fundamental que serão feitas as escolhas que visam a eficácia pastoral.
1. Ritos iniciais da missa: formar assembléia, "entrar no clima da celebração".
As partes que precedem a Liturgia da Palavra, isto é, introdução eventual à celebração pelo (a) animador (a), "entrada dos ministros, saudação, ato penitencial, Senhor, tende piedade, Glória e Oração do dia (Coleta) têm caráter de exortação, introdução, preparação". Por isso mesmo tem grande importância para uma boa celebração. "Esses ritos têm por finalidade fazer com que os fiéis reunidos constituam a comunidade celebrante, se disponham a ouvir atentamente a Palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia". Em certas circunstâncias tradicionais, o Missal Romano prevê também a omissão parcial ou total dos ritos iniciais, exceto a Oração do dia, quando outros ritos precedem e integram a liturgia do dia, por exemplo, no Domingo de Ramos e da Paixão e na Apresentação do Senhor, após a procissão. Nestes casos, os ritos de bênção e procissão desempenharão também a função dos ritos iniciais, que é a de constituir a assembléia, bastando a Oração do dia e o Glória, quando previsto.
Entrada. Nossas celebrações costumam ser precedidas por breves palavras iniciais do (a) animador (a). Mais do que uma exortação ou de uma introdução temática, é preferível situar a celebração deste Domingo particular no contexto do Tempo litúrgico e das circunstâncias concretas da vida da comunidade; evocar algumas grandes intenções subjacentes à oração, suscitar atitudes de oração e convidar ao início da celebração com o canto da entrada. Enquanto o sacerdote entra com os demais ministros, a assembléia é convidada a levantar-se, para dar início à celebração com o canto da entrada. A finalidade deste canto é justamente dar início à celebração, criar o clima que vai promover a união orante da comunidade e introduzir no mistério do Tempo litúrgico ou da festa. Este canto de abertura acompanha também a entrada do sacerdote e dos ministros. É conveniente valorizar uma verdadeira procissão de entrada do sacerdote e dos demais ministros, que prestarão um serviço específico na celebração: acólitos, ministros extraordinários da Comunhão, leitores e outros ministros. Estes ministros, oportunamente, tomarão lugar no presbitério.
Na procissão: à frente vai cruz processional acompanhada de velas acesas, livro dos Evangelhos ou Lecionário e em seguida os leitores, ministros da comunhão e o presidente da celebração.
Saudação ao povo reunido. Para saudar o povo reunido, o sacerdote é convidado a usar uma fórmula ritual de inspiração bíblica à qual o povo responde com uma fórmula conhecida e sempre a mesma. Eventualmente, a saudação ritual ganhará mais significado se for cantada.
Ato penitencial. O sacerdote convida ao ato penitencial, realizado então por toda a comunidade. O ato penitencial é um momento importante da celebração, valorizado por uma sadia criatividade. Tem como função preparar a assembléia para "ouvir a Palavra de Deus e celebrar dignamente os santos mistérios". Além de celebrar a misericórdia divina, duas atitudes básicas podem ser sublinhadas: o reconhecer-se pecador, culpado e necessitado de purificação, na atitude do publicano descrita em Lucas 18,9-14, e o reconhecer-se pecador como expressão de "temor" diante da experiência do Deus Santo e Misericordioso, a exemplo de Pedro, conforme Lucas 5,8 e Isaías 6,1-7. De acordo com as circunstâncias, pode-se acentuar um ou outro aspecto. Temos, pois, os seguintes elementos: introdução pelo sacerdote; parte central do rito, que permite a intervenção de outros ministros que não sejam o sacerdote e conclusão. O ato penitencial, não se trata do sacramento da Penitência. Todo o rito, por sua vez, pode ser substituído pelo Rito da Bênção e Aspersão da água. O ponto central do rito comporta, além de um tempo de silêncio, fórmulas diversas de reconhecer-se pecador: 1) Ato de contrição (Confesso a Deus); 2) Versículos: Tende compaixão…; 3º Forma litânica com invocações à escolha e resposta: Senhor, tende piedade de nós. Existe a possibilidade de o rito penitencial integrar ou ser complementado por cantos populares de caráter penitencial, refrões variados, atitudes corporais (inclinar-se, ajoelhar-se, erguer as mãos em súplica, bater no peito, fechar os olhos, colocar a mão no coração etc.), para externar os sentimentos de penitência e de conversão. Os tempos penitenciais como a Quaresma e outros, quando não se canta o Glória, serão mais propícios para um rito penitencial mais desenvolvido, de acordo com a pedagogia do Ano litúrgico, permitindo assim maior variedade. Embora se deva educar a consciência moral, cuidar-se-á para não se cair nem no perigo do moralismo nem no de acusação aos outros nem ainda no psicologismo aético; devem ser valorizadas sobretudo as dimensões teológicas, experienciais e libertadoras do amor de Deus e da reconciliação. O rito penitencial bem realizado pode tornar-se um lugar importante para o ministério pastoral da educação ao senso do pecado pessoal, comunitário, social e do ministério da reconciliação de toda a Igreja, que encontra o seu ápice de sacramentalidade no Batismo e na Penitência.
Kyrie eleison — Senhor, tende piedade. De vez em quando convém valorizar o "Senhor, tende piedade" em si, sem ser integrado no rito penitencial, como "canto em que os fiéis aclamam o Senhor e imploram a sua misericórdia", a sua atenção. É uma aclamação pela qual podemos louvar o Senhor Jesus pelo perdão, por "olhar por nós" na sua misericórdia.
Hino de louvor – Glória. O Glória é um hino antiqüíssimo e venerável, pelo qual a Igreja glorifica a Deus Pai e ao Cordeiro. Não constitui uma aclamação trinitária. “O glória é um hino que remonta aos primeiros séculos da era cristã. O Glória pode ser dividido em três partes: a) O canto dos anjos na noite do nascimento de Cristo: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados; b) Os louvores a Deus Pai: Senhor Deus, rei dos céus, Deus Pai todo-poderoso: nós vos louvamos, nós vos bendizemos, nós vos adoramos, nós vos damos graças, por vossa imensa glória; c) Os louvores seguidos de súplicas e aclamações a Cristo: Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito, Senhor Deus, Cordeiro de Deus, Filho de Deus Pai. Vós que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós, vós que tirais o pecado do mundo, acolhei a nossa súplica. Vós que estais a direita do pai, tende piedade de nós. Só vos sois o Santo, só vós o Senhor, só vós o altíssimo Jesus Cristo. O glória termina com um final majestoso, incluindo o Espírito Santo. O espírito Santo aparece relacionado com o filho, pois é neste que se concentram os louvores e as súplicas. O Cristo se mantém no centro de todo o hino. Ele é o Kyrios, o Senhor que desde todos os tempos habita no seio da trindade. No Glória esta contido o louvor, a aclamação e a súplica. Jesus Cristo aparece no centro desta grande doxologia. É proclamado nos domingos, solenidades e em celebrações especiais - exceto no tempo da quaresma e no advento. Pode ser cantado, desde que mantenha a letra original” (Liturgia em mutirão, CNBB, pág. 101 - 103).
Oração do dia (Coleta). O sacerdote convida o povo a rezar; todos conservam-se em silêncio com o sacerdote por alguns instantes, tomando consciência de que estão na presença de Deus e formulando interiormente os seus pedidos". o sacerdote motiva com poucas palavras o povo para uma oração silenciosa de alguns instantes. Será um verdadeiro momento de recolhimento profundo, onde se experimentará a presença de Deus que fala nos corações. A oração presidencial, a seguir, rezada pelo sacerdote reassumindo em Cristo toda a oração do povo, exprime em geral a índole da celebração. O tom de voz e a maneira de rezar, o gesto de mãos abertas, que o povo, eventualmente, poderia acompanhar, uma palavra melhor explicitada, ajudarão a fazer deste momento o lugar de uma verdadeira súplica a Deus Pai, expressão de sua vida e de sua experiência religiosa.
2. Liturgia da Palavra: Celebrar a Palavra
A Liturgia da Palavra é um diálogo entre Deus e o seu Povo.
As leituras: "A parte principal da Liturgia da Palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida e concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis". As leituras podem ser introduzidas com breves palavras, aptas a prender a atenção dos ouvintes e a facilitar a compreender o texto, logo após a oração da coleta. Nunca se substitua a proclamação da Palavra de Deus por qualquer outra leitura.
Quanto ao modo de proclamar as leituras, em textos mais longos, pode-se distribuir entre os diversos leitores, tal como para a proclamação da Paixão do Senhor na Semana Santa. Tenha-se sempre o cuidado de preparar os leitores para que possam desempenhar digna e convenientemente o seu ministério. Nunca se omita a proclamação do texto bíblico. "Para os domingos e solenidades estão marcadas três leituras, isto é, do Profeta, do Apóstolo e do Evangelho, que levam o povo fiel a compreender a continuidade da obra da salvação, segundo a admirável pedagogia divina. Portanto, é muito desejável que estas três leituras sejam realmente feitas; contudo, por motivos de ordem pastoral e decisão da Conferência Episcopal, pode-se permitir em algumas regiões o uso de apenas duas leituras", mantendo-se sempre o texto do Evangelho. Para a escolha eventual entre as duas primeiras leituras atente-se para o maior fruto dos fiéis. "Jamais se escolha um texto unicamente por ser mais breve ou mais fácil".
Salmo responsorial: Entre as leituras cante-se um salmo que favoreça a meditação da palavra escutada, sobretudo quando é brevemente salientada esta sua função. Este salmo responsorial, Palavra de Deus, é parte integrante da Liturgia da Palavra e seu texto acha-se diretamente ligado à respectiva leitura. A missa é para os cristãos leigos quase o único lugar onde podem descobrir a riqueza inesgotável dos salmos.
A proclamação do Evangelho: deve aparecer como ponto alto da Liturgia da Palavra. A tradição romana sempre valorizou com ritos expressivos tanto o Livro dos Evangelhos quanto a sua proclamação: Procissão do livro e canto de aclamação, persignação, incensação, leitura ou canto solene, beijo do livro, aclamações antes e depois da leitura. Por isso, evitar-se-á usar simples folhetos para a proclamação das leituras da Palavra de Deus. Não faltarão, onde for possível, antes da proclamação do Evangelho um verdadeiro canto de aclamação e "após o Evangelho, a aclamação do povo segundo o costume da região", oportunamente cantada e acompanhada de gestos, cantos, vivas etc. Poder-se-ia em certos lugares valorizar a entrada do Livro dos Evangelhos, a não ser que se tenha feito no início da liturgia da Palavra ou no rito da Entrada.
ATENÇÃO: O leitor deve proclamar o texto com calma e de forma clara. Por esse motivo, não é recomendável escolher os leitores poucos instantes antes do início da missa, principalmente pessoas que não têm o costume de freqüentar aquela comunidade. Quando isso acontece e o "leitor", na hora da leitura, começa a gaguejar, a cometer erros de leitura e de português, podemos ter a certeza de que, quando ele disser: "Palavra do Senhor", a resposta da comunidade, "Graças a Deus", não se referirá aos frutos rendidos pela leitura, mas sim pelo alívio do término de tamanha catástrofe!
Ora, se a fé vem pelo ouvido, como declara o Apóstolo, certamente o leitor deve ser uma pessoa preparada para exercer esse ministério; assim, é interessante que a Equipe de Celebração seja formada, também, por leitores "profissionais", ou seja, especial e previamente selecionados.
Do que foi dito, concluímos a relevância do ministro leitor. A palavra manifesta-se a nos encarnada em sua pessoa, em sua voz. Ele chega a ser um novo João Batista, voz do Senhor. Por isso, deve estar consciente do insondável mistério da palavra que irrompe na assembléia. Ele e toda a assembléia devem estar dispostos a acolher essa palavra nova, única e irrepetível.
Porém o leitor, além de sua preparação espiritual, deve levar em conta os elementos técnicos de seu ofício: vocalização, controle do volume de voz, do ritmo da leitura, postura corporal ereta, com cabeça levantada, olhando a assembléia com freqüência, etc. dessa aptidão em seu ofício, depende a qualidade com que chega a palavra, é extremamente necessária uma diligente preparação para esse ministério. O bom seria se nas comunidades tivessem leitores instituídos para esse ministério, talvez isso fizesse crescer a consciência da significação da celebração da palavra. Na maioria das comunidades, a proclamação é distribuída ao acaso, minutos antes da celebração. Isso evidentemente, não permite uma adequada preparação espiritual do leitor e gera um grande risco em relação à sua aptidão. Se fôssemos conscientes da Palavra proclamada, não descuidaríamos tanto desse aspecto, como frequentemente ocorre.
Homilia: Diferente do sermão ou de outras formas de pregação, a homilia (significa conversa familiar) é parte integrante da Liturgia da Palavra e, como tal, fica reservada ao sacerdote ou ao diácono. É função da homilia atualizar a Palavra de Deus, fazendo a ligação da Palavra escutada nas leituras com a vida e a celebração. É importante que se procure mostrar a realização da Palavra de Deus na própria celebração da Ceia do Senhor. A homilia procura despertar as atitudes de ação de graças, de sacrifício, de conversão e de compromisso, que encontram sua densidade sacramental máxima na Liturgia eucarística. Os fiéis esperam muito dessa pregação e dela poderão tirar frutos abundantes, contanto que ela seja simples, clara, direta e adaptada, profundamente aderente ao ensinamento evangélico e fiel ao magistério da Igreja. Para isso é necessário que a homilia seja bem preparada, relativamente curta e procure prender a atenção dos fiéis. Onde for possível, convém que a homilia seja preparada em equipe com a participação de alguns cristãos leigos para que se possa levar em conta não só "o mistério celebrado, como as necessidades particulares dos ouvintes".
O Símbolo ou Profissão de fé. "O Símbolo ou Profissão de fé, na missa, tem por objetivo levar o povo a dar o seu assentimento e resposta à Palavra de Deus ouvida nas leituras e na homilia, bem como recordar-lhe a regra da fé antes de iniciar a celebração da Eucaristia". Além do Símbolo niceno-constantinopolitano, que deveria ser usado mais freqüentemente, é muito útil para as celebrações com o povo o Símbolo dos apóstolos na sua forma direta ou, em casos especiais, na forma dialogada, como ocorre no rito do Batismo, no dia da Crisma e na Vigília Pascal. Eventualmente refrões cantados e adequados podem integrar sua recitação. É um abuso substituir o Creio por formulações que não expressam a fé como é professada nos símbolos mencionados.
Oração universal ou dos fiéis. A Oração dos fiéis ou Oração universal, de modo geral, tornou-se nas comunidades um momento bom, variado e de bastante participação, "onde o povo, exercendo a sua função sacerdotal, reza por toda a humanidade". Na formulação das intenções, sem negligenciar a abertura para os grandes problemas e acontecimentos da Igreja universal, dar-se-á espaço para as necessidades mais sentidas pela comunidade; convém estimular a formulação de preces diretamente pelo povo, especialmente, em grupos menores. Dar-se-á oportunidade, por exemplo, na última intenção a que todos possam colocar suas intenções, rezando ao mesmo tempo em silêncio. É bom que se eduquem os fiéis sobre o sentido comunitário da oração, evitando-se intenções de caráter meramente pessoal ou em número tão elevado que prejudique o ritmo da celebração. É conveniente uma maior criatividade para as respostas, que serão, oportunamente, cantadas. Ao sacerdote cabe introduzir e concluir a Oração dos fiéis.
3. Liturgia Eucarística: Celebrar a Ceia pascal
Celebrando o memorial do Senhor, a Igreja, na Liturgia eucarística, faz o mesmo que Cristo fez na última Ceia. Cuidar-se-á, na catequese e na pregação para que os fiéis possam facilmente reconhecer esta estrutura fundamental da Liturgia eucarística.
Preparação das Oferendas: Ele tomou o pão, ele tomou o cálice. "No início da Liturgia eucarística são levadas ao altar as oferendas, que se converterão no Corpo e Sangue de Cristo". No conjunto da celebração, após a Liturgia da Palavra e antes de iniciar-se a Oração eucarística, a preparação das oferendas representa um momento de pausa, de descanso para a assembléia, um momento visual. Por isso, convém tomar o tempo necessário de maneira que a Oração eucarística, a seguir, tenha um destaque melhor, como retomada do diálogo.
Prepara-se a mesa condignamente e trazem-se as oferendas. Neste momento, o sacerdote pode assentar-se. É conveniente que membros da própria assembléia participem da preparação desta mesa e levem em procissão as oferendas do pão e do vinho para o sacrifício eucarístico. "Embora os fiéis já não tragam de casa, como outrora, o pão e o vinho destinados à Liturgia, o rito de levá-los ao altar conserva a mesma força e significado espiritual". "Também são recebidos o dinheiro ou outros donativos oferecidos pelos fiéis para os pobres ou para a igreja ou recolhidos no recinto da mesma; serão, no entanto, colocados em lugar conveniente, fora da mesa eucarística". Onde for possível, pode ser mais expressivo que todos possam aproximar-se para depositar a sua oferta em lugar adequado. As ofertas da assembléia fazem parte da ação litúrgica. Por isso não devem ser abolidas.
Em certas ocasiões a procissão tornar-se-á mais expressiva se levar também para junto do altar ofertas simbólicas alusivas à comemoração realizada naquele dia ou a algum aspecto da vida da comunidade. Os cristãos, outrora, para expressar a sua participação no sacrifício eucarístico, eram muito sensíveis à oferta do pão, do vinho e de dádivas para os pobres. Hoje, uma nova sensibilidade simbólica nos faz atentos ao fato de que o pão e o vinho, que o Senhor usou na Ceia, são frutos da terra e do trabalho de homens e mulheres. Portanto, outros frutos e instrumentos do mesmo trabalho podem ser aqui apresentados. O ofertório verdadeiro realiza-se na Oração eucarística, após a Narrativa da Instituição ou Consagração, no momento da oblação do Corpo e Sangue de Cristo. "Por ela a Igreja, em particular, a assembléia reunida oferece ao Pai, no Espírito Santo, a hóstia imaculada; ela deseja, porém, que os fiéis não apenas ofereçam a hóstia imaculada, mas aprendam a oferecer a si próprios, e se aperfeiçoem, cada vez mais, pela mediação de Cristo, na união com Deus e com o próximo, para que finalmente Deus seja tudo em todos".
A oferta apresentada na hora da apresentação das oferendas é, ao nível do simbólico, uma antecipação daquela oblação e deve significar as pessoas entregando-se a Deus através de suas ofertas "em" Cristo. Oferecer os frutos da terra e do trabalho, que de Deus recebemos, é um gesto de amor, uma maneira de reconhecer que ele é nosso Pai.
O canto do ofertório, se houver, acompanha a procissão das oferendas e se prolonga pelo menos até que os dons tenham sido colocados sobre o altar. O canto não deve necessariamente falar de ofertas, mas pode recordar a vida do povo de modo condizente com o ato litúrgico ou simplesmente harmonizar-se com a celebração do mistério do dia de acordo com a tradição. O ofertório pode ser momento propício para valorizar gestos da assembléia.
A Oração eucarística: Ele deu graças. Sendo memorial de Cristo, a Eucaristia não consiste apenas em renovar os gestos da Ceia, mas também em renovar os gestos de Cristo na páscoa de sua vida, morte e ressurreição: louvor ao Pai a partir das circunstâncias de nossa Igreja caminhante, oferecer o sacramento memorial do sacrifício de Cristo, mas ao mesmo tempo oferecer-nos a nós mesmos na nossa páscoa, páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo. Antes de iniciar o Prefácio, lembrando o que foi anunciado na Palavra, o presidente da celebração pode chamar a atenção de todos para o acontecimento central da missa, que torna presente o sacrifício de Cristo na Ceia eucarística e a participação dos fiéis na mesma. Este também pode ser um dos momentos oportunos para recordar os motivos de ação de graças da comunidade e uni-los à grande ação de graças da Igreja, a Eucaristia.
A Oração eucarística é "centro e cume de toda a celebração". Não basta, porém, afirmá-lo; é preciso que, de fato, no conjunto da missa se reze de tal modo esta Oração que ela apareça como momento alto do Santo Sacrifício. Além da escolha da Prece mais apropriada, é importante o modo de o presidente proferir a Oração, procurando a maior comunicação possível e a participação da assembléia através das aclamações. Sendo celebração, procurar-se-á valorizar todos os elementos simbólicos que, pela sua natureza, podem contribuir para realçar este momento da celebração: o canto, os gestos, a voz e as atitudes do sacerdote, dos ministros e da assembléia e, se oportuno, o uso tradicional de campainhas, sinos, incenso etc.
Como já notamos, é particularmente importante valorizar o canto, tanto por parte do sacerdote (Prefácio, Narração da Instituição, Anamnese, Doxologia final), quanto nas partes da assembléia: Santo, Aclamações diversas, segundo as Orações eucarísticas, aclamação do Amém final. Considerando que as aclamações constituem uma forma de participação ativa da comunidade na grande Oração eucarística de quem preside, convém valorizar tais aclamações conforme a índole do povo. Para intensificar essa participação ativa do povo, as aclamações sejam de preferência, cantadas e oportunamente acompanhadas de gestos. Convém que se valorize da melhor maneira possível, em particular o Amém conclusivo da Oração eucarística, por exemplo, enfatizando-o através do canto, da repetição ou de outro modo.
4. Ritos da Comunhão
O Pai-nosso: sobretudo quando cantado, é especialmente apto para estimular o sentimento de fraterna solidariedade cristã. Este sentimento pode, além disso, ser expresso por gestos, desde que se harmonizem com os gostos e costumes do povo. Por ser a Oração que o Senhor nos ensinou, não deve ser nunca substituída por outros cantos, parafraseando o Pai-nosso, que poderão, no entanto, ser aproveitados em outros momentos.
O rito da paz: "Neste rito, os fiéis imploram a paz e a unidade para a Igreja e toda a família humana e exprimem mutuamente a caridade antes de participar do mesmo pão". Espontaneamente as nossas comunidades acolheram e perceberam o rito da saudação da paz como momento de confraternização alegre em Cristo. É momento privilegiado para realçar o compromisso da comunicação da paz a todos indistintamente. Paz recebida como dom. Seria conveniente não realizar o rito da paz sempre da mesma maneira, mas, pelo contrário, usar da criatividade e variar. Por exemplo, a saudação poderá ser simplificada ou omitida por completo nos tempos penitenciais; ela será realçada, pelo contrário, em tempos de festa. Ocasionalmente, o gesto facultativo da saudação poderá ser realizado em outro momento da celebração: por exemplo, nos ritos de entrada da missa, como saudação fraterna; no ato penitencial em sinal de reconciliação; após a homilia ou antes da apresentação das oferendas, também como, perdão das ofensas ou, se deixado para o fim da missa, como gesto de despedida ou cumprimento (pêsames, parabéns etc.).
Fração do pão: "O gesto de partir o pão, realizado por Cristo na última Ceia, deu nome à toda a Ação eucarística na época apostólica; este rito possui não apenas uma razão prática, mas significa que nós, sendo muitos, pela comunhão do único Pão da Vida, que é o Cristo, formamos um único corpo". Para de novo realçar o gesto de partir o pão e o seu significado é conveniente que a "matéria da Celebração eucarística pareça realmente um alimento… e que o sacerdote possa, de fato, partir a hóstia em diversas partes e distribuí-la ao menos a alguns fiéis". Na estrutura da Ceia, é aqui o lugar próprio da fração como gesto ritual de fazer o que Cristo fez e não durante a Narrativa da Instituição (Consagração). Durante a fração, o povo canta ou diz o "Cordeiro de Deus", entoado pela assembléia. A saudação da paz não deve ofuscar a importância deste momento do rito. É conveniente igualmente "usar uma única patena de maior dimensão, onde se coloque tanto o pão para o sacerdote como para os ministros e fiéis".
Comunhão: "A Comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob esta forma manifesta-se mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no reino do Pai". Por isso, dever-se-ia fazer esforço necessário para que "os fiéis recebam o Corpo de Cristo em hóstias consagradas na mesma missa enquanto possível, e participem do cálice pelo menos nos casos previstos". Seria recomendável que participassem do cálice os "ministros que desempenham uma função na missa". A distribuição da Comunhão sob duas espécies exige cuidados especiais, conforme as circunstâncias locais. As instruções litúrgicas insistem que apareça claramente, através da pessoa de um ministro que preside a distribuição, o sinal de Cristo que na Ceia "dá" a seus discípulos, em comunhão, o seu Corpo entregue, o seu Sangue derramado. Por isso, a comunhão deve ser sempre recebida da mão do ministro. Os pastores tenham o cuidado de orientar os fiéis sobre a Comunhão na mão. O sacerdote é o ministro ordinário não só da consagração, mas também, juntamente com o diácono, da distribuição da Comunhão. "Enquanto o sacerdote e os fiéis recebem o Sacramento, entoa-se o Canto da Comunhão, que exprime, pela unidade das vozes, a união espiritual dos comungantes, demonstra a alegria dos corações e torna mais fraterna a procissão dos que vão receber o Corpo de Cristo. O canto começa quando o sacerdote comunga, prolongando-se oportunamente, enquanto os fiéis recebem o Corpo de Cristo. Durante a Comunhão há lugar também para um fundo de música instrumental, concluído o canto”.
Interiorização após a Comunhão: "Terminada a distribuição da Comunhão, se for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo em silêncio, podendo a assembléia entoar ainda um hino ou outro canto de louvor". É particularmente útil deixar espaço após a distribuição da Comunhão para um momento de interiorização. Segundo as circunstâncias, será orientado por quem preside ou outro ministro. Este poderá ser nas comunidades outro momento de grande flexibilidade, usado como criatividade: silêncio, meditação, oração, canto, visando um aprofundamento do mistério celebrado etc. Em geral, as Antífonas da Comunhão do Missal, recebidas da tradição, retomam uma frase central do Evangelho ou do mistério do dia. Elas nos fornecem assim uma indicação precisa quanto à maneira de como pode ser apresentada e aprofundada a Comunhão eucarística à luz da Palavra de Deus.
A Oração presidencial após a Comunhão: na qual se "imploram os frutos do mistério celebrado", aparecerá facilmente como conclusão deste momento de interiorização. "O sacerdote… recita a Oração depois da Comunhão, que pode ser precedida de um momento de silêncio, a não ser que já se tenha guardado silêncio após a Comunhão". A Oração depois da Comunhão constitui propriamente a conclusão do rito da Comunhão e de toda a missa. Por meio dela estabelece-se a relação entre a Celebração eucarística e a vida eucarística do cristão.
5. Ritos finais da missa: A despedida
"Terminada a Oração depois da Comunhão, podem ser feitas, se necessário, breves comunicações ao povo". Os avisos que dizem respeito à vida da comunidade serão dados, de preferência, pelas próprias pessoas que estão ligadas a tais iniciativas, sob a responsabilidade de quem preside. Não se omitirão comunicações sobre atividades de outras comunidades e da Igreja universal. Este parece ser também o momento mais adequado para as breves homenagens, que as comunidades gostam de prestar em dias especiais antes de se dispersarem. Eventualmente, antes de encerrar-se a celebração, será útil uma mensagem final, na qual se exorte a comunidade a testemunhar pela vida a realidade celebrada. Um canto final, se parecer oportuno, embora não previsto no Missal, encontrará maior receptividade neste momento do que mais tarde. Nos tempos litúrgicos mais ricos ou em certos momentos especiais da vida das comunidades, a bênção final será enriquecida pelas bênçãos solenes à escolha ou orações sobre o povo. Nada impede que no caso de acontecimentos especiais celebrados na missa da comunidade, tais como bodas e jubileus, bem como outras circunstâncias semelhantes, a bênção final inclua uma bênção especial para o casal ou pessoas determinadas. De qualquer modo, haja no fim da missa, na medida do possível, uma verdadeira despedida humana e fraterna.
Celebração da Palavra de Deus
1. Reunião em nome do Senhor;
2. Proclamação e atualização da Palavra de Deus;
3. Ação de Graças;
4. Envio em missão.
Adoração e Benção do Santíssimo;
1. Cânticos
2. Proclamação da Palavra de Deus;
3. Preces e súplicas;
4. Tempo de oração e silêncio;
5. Quando tem a benção (Padre)
6. Quando não tem benção;
7. Na adoração não há distribuição de comunhão;
8. Para haver distribuição de comunhão é necessário a Celebração da Palavra de Deus;
A Liturgia das Horas, caminho de santidade
Pelo Pe. Frei Alberto Beckhäuser, OFM
Em 1971 era publicada a Liturgia das Horas renovada segundo a mente do Concílio Vaticano II. Agora, finalmente, depois de muitas vicissitudes, temos o Officium Divinum, a Liturgia das Horas, em quatro volumes, na sua versão portuguesa para o Brasil em nossas mãos. A demora talvez tenha sido até providencial, pois a temos já em sua segunda edição típica original publicada entre os anos 1985 e 1987.
Será preciso redescobrir o grande tesouro contido nesta forma de oração eclesial, para que se possa cumprir o que Paulo VI escreve na Constituição Apostólica Laudis canticum, com a qual promulga o novo Ofício Divino restaurado pelo Concílio Vaticano II: "Aqueles que, tendo recebido a sagrada ordenação, são destinados a ser, de modo especial, o sinal do Cristo Sacerdote, e aqueles que pelos votos da profissão religiosa se consagraram de maneira especial ao serviço de Deus e da Igreja, ao celebrarem o Ofício Divino, não se sintam impelidos unicamente por uma lei a cumprir, mas antes pela reconhecida importância intrínseca da oração e pela sua utilidade pastoral e ascética. É muito desejável que a oração pública da Igreja brote de ampla renovação espiritual e da comprovada necessidade intrínseca de todo o corpo da Igreja. Esta, à semelhança do seu Chefe, só pode apresentar-se como Igreja orante.
Portanto, através do novo livro da Liturgia das Horas, que agora estabelecemos, aprovamos e promulgamos com nossa Autoridade Apostólica, ressoe ainda mais esplêndido e belo o louvor divino na Igreja do nosso tempo. Unindo-se ao que os Santos e Anjos cantam nas moradas celestes, e crescendo em perfeição no decorrer dos dias deste exílio terreno, aproxime-se cada vez mais daquele louvor pleno, eternamente tributado “Aquele que está sentado no trono e ao Cordeiro”.
Esse tempo de quase vacância da Liturgia das Horas em sua plenitude certamente trouxe consigo sérias conseqüências. Merece menção a perda quase completa do Ofício das Leituras. Houve tempos em que, apesar de seus desvirtuamentos, o breviário era como que o símbolo do padre, do cura de almas, do Pastor. E hoje? Vale a pena lembrar o que D. Clemente José Carlos Isnard escreve em sua apresentação do novo Livro da Liturgia das Horas: "Bem usada, a Liturgia das Horas dispensa livros de meditação e pode nutrir substancialmente a vida espiritual e ação apostólica de quem dela faz uso".
Certamente não basta trocar de livro para que o Povo de Deus e, particularmente, os ministros ordenados exerçam sua vocação de Povo de Deus orante.
Não se ama o que não se conhece. Precisamos conhecer para amar mais este tesouro que a Igreja coloca nas mãos dos bispos, dos presbíteros, dos diáconos, dos consagrados e de todos os fiéis leigos. A melhor iniciação na Liturgia das Horas é certamente a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, que abre o I Volume, do Tempo do Advento e do Natal do Senhor. Nela podemos haurir em abundância a teologia e a espiritualidade da Liturgia das Horas. Não menos rica é a Constituição Apostólica Laudis canticum de Paulo VI. Existem comentários sobre o tema, entre os quais o livro O Sentido da Liturgia das Horas[1].
A presente contribuição de quem dedicou cerca de cinco anos para que a Igreja no Brasil finalmente pudesse ter em mãos esta pérola preciosa tem por objetivo ajudar a descobrir a Liturgia das Horas como caminho de santidade. Oferece-a particularmente aos presbíteros, especialmente chamados, por sua ordenação, a uma vida de santidade. Dirige-se às Comunidades religiosas, que, por sua vocação de consagrados e consagradas, "representam de modo especial a Igreja orante. Com efeito, mostram mais plenamente a imagem da Igreja que, sem cessar e em uníssono, louva ao Senhor. Elas cumprem, particularmente mediante a oração, o dever de colaborar na edificação e progresso de todo o Corpo Místico de Cristo e no bem das Igrejas particulares[2]”. Estende-se também a todos os membros do Povo de Deus[3].
Parece que os presbíteros são chamados por uma vocação especial à santidade. Falar hoje em santidade parece até um pouco fora de moda. Mas é este o desafio primeiro de toda a Igreja. É ela a razão de ser da criatura humana, da Igreja. O Documento de Santo Domingo coloca a Igreja convocada à santidade como premissa e fundamento de toda a sua ação evangelizadora[4].
O Papa João Paulo II vem insistindo na necessidade de se promover a santificação dos sacerdotes. Por sua iniciativa, foi instituída a Jornada Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes, na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.
A santidade dos presbíteros encontra-se no âmago de sua vocação, expressa na Oração consecratória de sua ordenação presbiteral. Se pela imposição das mãos é comunicado ao Bispo o Espírito Soberano para a edificação da Igreja como Templo de Deus, na ordenação de um presbítero a Igreja reza: "Nós vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí este vosso servo na dignidade de Presbítero; renovai em seu coração o Espírito de santidade; obtenha, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal, que de vós procede, e sua vida seja exemplo para todos".
Nesta fórmula central do Rito de ordenação aparecem dois elementos: o Espírito de santidade e o exemplo de vida para todos. Parece que o primeiro e principal modo de o Presbítero ser cooperados do Bispo na edificação da Igreja como Templo de Deus é o testemunho de uma vida santa para todos. Consiste em ele mesmo ser templo de Deus.
Ele buscará esta santidade de vida em todo o seu ser e agir. Todo o serviço sacerdotal ao Povo de Deus sacerdotal, profético e real transformar-se-á em espiritualidade presbiteral ou sacerdotal. Ele está a serviço do Deus santo. Para poder comunicar este Deus santo, deverá estar embebido desta fonte sagrada.
O Documento de Santo Domingo, tratando da Igreja convocada à santidade, fala da exigência de uma vida espiritual profunda para os ministros ordenados. E diz: "Por estas razões nos propomos: – Buscar em nossa oração litúrgica e particular e em nosso ministério uma permanente e profunda renovação espiritual para que nos lábios, no coração e na vida de cada um de nós Jesus Cristo esteja sempre presente. – Crescer no testemunho de santidade de vida a que somos chamados com a ajuda dos meios que já temos em nossas mãos: 'Os encontros de espiritualidade sacerdotal, como os exercícios espirituais, os dias de retiro ou de espiritualidade' (PDV 80) e outros recursos assinalados no Documento Pontifício pós-sinodal" (n. 71).
Neste sentido, a Liturgia das Horas apresenta-se a ele como fonte inesgotável. Constitui um caminho seguro de santificação, de santidade. Este caminho foi assumido solenemente no dia de sua ordenação diaconal. No diálogo sobre os propósitos do eleito, o Bispo ordenante pergunta: "Queres, de acordo com o teu estado, perseverar e progredir no espírito de oração e, neste mesmo espírito, segundo tuas condições, realizar fielmente a Liturgia das Horas com o Povo de Deus, em seu favor e pelo mundo inteiro?" E o eleito responde: "Quero". Na ordenação presbiteral, ele reassume este compromisso. O Bispo interroga: "Queres implorar conosco a misericórdia de Deus em favor do povo a ti confiado, sendo fielmente assíduo ao dever da oração?" O eleito responde: "Quero". É um dever que brota da vocação de mediador entre Deus e os seres humanos.
1. Um ofício divino
Junto com toda a Liturgia, a das Horas participa do seu caráter de ofício divino (ação divina) por excelência. O que é a oração em geral senão a comunicação com o divino em nós, diretamente ou através do próximo e de toda a natureza criada? Comunicação com Deus Uno e Trino. Comunicação que se pode dar na pergunta sobre: Quem é Deus e quem somos nós. Na resposta a Ele. Resposta de admiração, de adoração, de louvor, de conversão, de conformidade com sua santíssima vontade, de pedido e de intercessão. Esta comunicação pode dar-se ainda na experiência da comunhão no amor, que o mais das vezes se dá no silêncio da contemplação e vai além das próprias palavras. Na oração se exerce a vocação do ser humano de sacerdote (filho), na virtude teologal da fé e na obediência; de rei (senhor) da criação, na virtude teologal da esperança, em atitude de pobreza; e de profeta, na virtude teologal da caridade, na castidade conforme o estado de vida de cada um. O ser humano em oração já antecipa sua vocação última e definitiva de comunhão de amor, de vida e de felicidade com Deus.
Mas a oração pela Liturgia das Horas tem caráter de ofício divino por um motivo ainda mais profundo. Nela é o próprio Filho de Deus quem reza, quem se comunica com o Pai, no Espírito Santo, assumindo em si todo o seu corpo. É memorial da própria oração de Jesus Cristo ao Pai. Nela, a Igreja comemora o mistério do Cristo orante e dele participa de modo sacramental. É Jesus Cristo orando na voz da Igreja e a Igreja orando na oração de Jesus Cristo. A Igreja, o Corpo místico de Cristo, comunica-se com o Pai através do memorial de todos os mistérios de Cristo. A Liturgia das Horas é louvor da Igreja pelo mistério de Cristo, a partir da luz, do ritmo do dia, para a santificação especial do tempo, percebido no dia, na semana e no ciclo anual.
2. Uma oração bíblica
O Cristo orante, a Palavra de Deus encarnada, torna-se presente sobretudo através da Palavra de Deus, as Sagradas Escrituras. É dela que a Igreja haure a presença de Jesus Cristo, enfim, todo o mistério de Cristo comemorado na Liturgia das Horas. Nas Sagradas Escrituras a Igreja sorve toda a economia divina da criação e da salvação em Cristo Jesus, manifestada na História da Salvação.
Basta olharmos para as leituras bíblicas longas e breves, os salmos e cânticos do Antigo e do Novo Testamento, as antífonas e os responsórios. Também os textos não diretamente bíblicos, como os hinos, as preces, as leituras patrísticas e as orações de tipo coleta, são profundamente inspirados na Palavra de Deus. Realiza-se de fato a leitura orante da Bíblia.
A palavra de Deus é ouvida. Estabelece-se um confronto. Ela é vivenciada. Surge uma resposta pela admiração, pelo pedido de perdão, se a vida não se conforma com a Palavra, pela reconciliação, o louvor, o pedido e a intercessão. Realiza-se a conversão e brota um compromisso de viver de acordo com a Palavra.
3. Caminho de conversão continuada e permanente
Pela Liturgia das Horas estabelece-se um ritmo de conversão permanente. Não se trata da primeira conversão pela fé e o batismo, mas da conversão em crescimento, que perpassa toda a vida do cristão em busca da perfeição da caridade, do "sede santos porque Deus é santo" (cf. 1Pd 1,16), do "sede perfeitos como vosso Pai do céu é perfeito" (cf. Mt 5,48).
Toda a Igreja e, de modo especial, os presbíteros, são convocados cinco (sete) vezes por dia para um confronto com Cristo, a Boa-nova, o Evangelho. Cada Hora pede, através do exemplo de Cristo, a perfeição na caridade, uma vida santa e imaculada diante de Deus no amor por Cristo e em Cristo Jesus (cf. Ef 1,4). Realizam-se cinco confrontos, cinco conversões diárias. Existem o antes, o durante e o depois, sobretudo quando a oração das Horas recebe uma expressão comunitária. Ela é expressão e fonte do amor fraterno, sempre de novo renovado na oração. A pessoa se prepara, dispõe o coração para a oração. Durante a oração ela se converte a Deus e aos irmãos, ela se reconcilia. Todos entram em sintonia com Cristo e com Deus. Esta sintonia da unidade na diversidade, reflexo do mistério de Deus Uno e Trino, recebe expressão no próprio ritmo da salmodia, das antífonas e dos responsórios. Quando proclamados em recitativo ou cantados, os salmos acentuam mais ainda este mistério da unidade na diversidade. Feita a reconciliação, ouvida a Palavra de Deus, a pessoa é enviada a viver de acordo com o que vivenciou na oração. Esta conversão-reconciliação toma o ritmo das horas do dia.
Laudes — Surge um novo dia como dom de Deus. O senhor irmão sol, imagem do Senhor Deus criador do universo, lança seus raios revitalizadores sobre a terra. Tudo retoma vida e beleza. Por ele somos convidados a saudar e acolher o Deus da vida e sermos nós mesmos fonte dessa vida. Saudamos a criação primeira e a nova criação, realizada pelo mistério pascal de Cristo. O hino nos lança neste mistério. O salmo matinal nos leva a celebrá-lo. O cântico nos leva a viver um acontecimento pascal da história da salvação, em Cristo Jesus, e o último salmo nos convida ao louvor. A leitura breve nos propõe um programa de vida como ressuscitados em Cristo pelo batismo. O Benedictus, o momento evangélico do Louvor matinal, "sobre nós fará brilhar o Sol nascente, para iluminar a quantos jazem entre as trevas e na sombra da morte estão sentados e para dirigir os nossos passos, guiando-os no caminho da paz". As Preces. Que riqueza! Abrem o coração para, através de invocações, recomendar ou consagrar o dia ao Senhor. Nelas aparece o ser humano matinal, chamado a construir um mundo mais justo e fraterno, a estabelecer o Reino de Deus neste mundo, a consagrar a Ele todas as realidades. Constituem um programa de vida evangélica. Diante de tudo isso, brota a Oração do Senhor, englobando toda a realidade. Abençoados pelo Senhor, podemos transformar o nosso dia numa bênção para o próximo.
Hora Média — Uma só ou três, conforme a disponibilidade no serviço do Reino. No meio do dia e do calor, o cansaço nos convida a uma pausa. Como o próprio Jesus Cristo, chegamos cansados ao poço de Jacó e nos é oferecida a água viva. As Horas menores das Nove, das Doze e das Quinze Horas lembram os passos da Paixão do Senhor e os primeiros passos da Igreja nascente: o Pentecostes, o anúncio do evangelho e o testemunho, o martírio. Como precisamos refazer as forças físicas para retomar a jornada, também nos saciamos com o Cristo, a nova Lei, a Lei do amor, alimento oferecido pelo Salmo 118. Refeitos na fonte da Vida, podemos abraçar o Cristo da Paixão e toda a Igreja e a humanidade no prolongamento da Paixão de Cristo. Pelos salmos que se seguem, em geral de perseguição, e de calúnias, damos em Cristo voz ao que sofre hoje a Paixão de Cristo, solidarizamo-nos com todos os que sofrem perseguições por causa da justiça, confiantes na vitória final do bem sobre o mal. A leitura breve apresenta-se como uma exortação à fidelidade e à perseverança no grande mandamento da caridade. O breve versículo constitui uma resposta de adesão à Palavra ouvida. Assim refeitos por Cristo e em Cristo, podemos retomar o caminho.
Vésperas – São os louvores vespertinos. Chegado o fim da jornada, olhando para trás, agradecemos a Deus o bem que recebemos e o bem que tivemos a graça de fazer. Tudo isso, a partir do grande bem da salvação, realizado por Cristo nos mistérios da tarde: seu sacrifício redentor da cruz, o novo mandamento da caridade, os sacramentos da Igreja, o próprio dom da Igreja, que jorrou do seu lado aberto na Cruz. O hino nos lança nesses mistérios com a garantia do prêmio. Pelos salmos rendemos graças a Deus por todo o Bem recebido, transformando tudo num grande sacrifício de louvor em união com o sacrifício de Cristo. O cântico do novo testamento constitui uma exultação pascal de louvor ao Cordeiro imolado e vitorioso. Pelo Magnificat, na voz de Maria, sinal da própria Igreja, toda ela canta e dá graças pela salvação recebida. As Preces são de intercessão, pedindo a Deus que esta salvação alcance a todos, mas especialmente as diversas categorias de pessoas que por suas vocações e carismas diferentes estão a serviço da construção do Reino, e outros grupos, como os doentes, os pobres, os que passam por provações e sentem maiores dificuldades para viverem sua vocação e missão humanas e de batizados. O Pai-nosso nos lança ainda na grande oração universal, que engloba tudo quanto podemos dizer a Deus.
Completas – Não se insiste no seu aspecto comunitário. Quer ser a última oração do dia, antes do repouso. Desdobra o aspecto escatológico de nossa vida em Deus, já presente nas Vésperas. Por ela a pessoa se recomenda a Deus, antes do repouso noturno. Os salmos são de reconciliação, de confiança e de esperança da vida eterna feliz em Deus. Como o velho Simeão, podemos repousar em Deus, na esperança da luz eterna e do dia sem fim. O Responsório breve, a oração final e a Antífona de Nossa Senhora também estão nesta linha de confiança e de esperança escatológica.
Ofício das Leituras – É, por excelência, uma leitura orante da Palavra de Deus. Continua tendo o caráter de uma vigília e de louvor noturno, mas pode ser realizado em qualquer hora do dia. "Será de grande proveito para a alma o tesouro da revelação e da tradição contido no Ofício das Leituras. Principalmente os sacerdotes devem buscar essas riquezas, a fim de poderem transmitir a todos a palavra de Deus, que eles mesmos receberam, e assim transformarem sua pregação em 'alimento para o povo de Deus'. A oração deve acompanhar a leitura da Sagrada Escritura, para que se estabeleça o diálogo entre Deus e o ser humano, pois a ele falamos quando oramos, a ele escutamos quando lemos os oráculos divinos. Por isso, o Ofício das Leituras consta também de salmos, hino, oração e outras fórmulas e apresenta caráter de verdadeira oração" (IG, n. 55-56).
O exercício da oração pela Liturgia das Horas acaba estabelecendo um ritmo constante de vivência do mistério pascal de Cristo, comemorando a Páscoa de Cristo e dos cristãos. Este ritmo no mergulho em Deus por Cristo pela ação do Espírito Santo tem suas variações.
Primeiramente, o ritmo diário, em que através das diversas horas se vive o mistério pascal de Cristo, na experiência diária do tempo.
Esta experiência se alarga na vivência semanal do mesmo mistério, na experiência do tempo pela alternância do trabalho e do repouso. Tem como fonte de energia o Dia do Senhor, a Páscoa semanal. Vivendo sempre todo o mistério pascal, no domingo se comemora especialmente o mistério da vida, contemplado na Ressurreição de Cristo e dos cristãos. Na segunda-feira, o mistério de Pentecostes. Na terça-feira, a missão da Igreja que se realiza na evangelização e em todo o seu apostolado. Na quarta-feira, sua dimensão martirial como conseqüência do testemunho, tendo como exemplos os santos mártires e padroeiros. Na quinta-feira, sobressaem os mistérios da Ceia derradeira, como o novo mandamento, o sacerdócio ministerial, e a Eucaristia. A sexta-feira se caracteriza pelo mistério da Paixão e Morte do Senhor, convocando para a conversão e a penitência. No sábado a Igreja mergulha na dimensão escatológica do mistério de Cristo, contemplado em Maria.
Finalmente, temos a grande vivência pascal anual através do ano litúrgico. Tem o Advento como ponto de partida e de chegada. Passa pelo ciclo de Natal e Epifania, atravessa a grande Páscoa anual, preparada pela Quaresma e prolongada pelo Aleluia pascal de 50 dias, para continuar contemplando e vivendo o mistério de Cristo realizado na Igreja no Tempo comum, através do Domingo como Páscoa semanal, e a comemoração dos santos. Neles, a Igreja contempla e comemora o Deus admirável nos seus santos. Vê passar diante de si, como modelos a serem imitados, Maria Santíssima e todos aqueles e aquelas que em suas vidas seguiram os passos do Cordeiro e dele deram testemunho.
Os santos, cada qual a seu modo e com seus carismas, revelam o mistério de Cristo, o Evangelho, e conduzem a ele. Podemos dizer que existem três tipos de Evangelho: o Evangelho escrito dos quatro evangelistas, o Evangelho vivido, os santos, e o Evangelho vivo, os cristãos, especialmente os religiosos e as religiosas na vida da Igreja. Os santos constituem, em seu conjunto, o Evangelho vivido. Cada qual a seu modo revela um determinado aspecto ou faceta do Evangelho e do mistério de Cristo. Temos, então, as várias categorias de santos e santas. Maria ocupa um lugar todo especial. Entre os santos temos São João Batista e São José que se encontram no caminho que leva a Jesus Cristo. Os apóstolos que revelam toda a riqueza do mistério de Cristo e da Igreja. Vêm os evangelistas, os mártires, as virgens, os contemplativos, os pastores, os penitentes, os que se dedicaram às obras de misericórdia, os pregadores, os que imitaram a Jesus Cristo nos mais diversos mistérios, como o Cristo, nosso irmão, o Cristo pobre e crucificado, a exemplo de São Francisco de Assis, a dedicação à infância, aos jovens, ao ensino e à educação, ao resgate dos prisioneiros. Quando a Igreja comemora os santos, comemora neles as diversas facetas de sua vocação evangélica de vida: a vocação apostólica, a vocação missionária, contemplativa, a vocação ao martírio, do amor consagrado a Deus a exemplo das santas virgens, a solidariedade para com os pobres e assim por diante.
Pela Liturgia das Horas, a Igreja vive todo o mistério de Cristo durante o ano. Os diversos mistérios recebem o seu colorido especial através dos hinos, das antífonas que dão um sentido atual aos salmos que também são propostos de modo a expressarem devidamente os mistérios, da escolha adequada das Leituras bíblicas, dos Responsórios, das preces e das orações.
Este ritmo pascal que se vai criando é favorecido e apoiado também na versão brasileira pela cadência ou os apoios rítmicos dos salmos, das antífonas e dos responsórios. Os pés de verso cativam, atraem, carregam a voz e o pulsar do coração, tornam a recitação leve e cadenciada. Este diálogo divino no diálogo humano se aperfeiçoa ainda mais na celebração comunitária, onde podemos deixar-nos enlevar pelo recitativo e o canto modulado dos salmos. Não somos donos das fórmulas como não somos donos dos mistérios que elas querem revelar e comunicar. Devemos desapropriar-nos de nós mesmos, do nosso individualismo e tornar-nos pobres e vazios de nós mesmos para acolher em nós o mistério de Deus. Devemos deixar-nos converter pelas fórmulas que nos comunicam a vida em Deus. Deus dança no nosso íntimo e nós entramos na dança com ele.
Tudo isso é processo permanente de conversão. Um desafio que se repete a cada hora, a cada dia, a cada ano, em toda a nossa vida. Eis um reiterado convite, um permanente desafio à santidade. Tudo isso se torna ainda mais significativo quando a Liturgia das Horas for celebrada em comum.
4. Alma do apostolado
A oração é chamada "a alma de todo o apostolado". Isso vale também para a Liturgia das Horas. Nela o ser humano vive a santidade porque é mergulhado no divino, no próprio Deus. Mais ainda, na Liturgia das Horas o ser humano dá testemunho do Cristo morto e ressuscitado. É o próprio Cristo quem dá testemunho do Pai no cristão que a celebra. O cristão reza a Liturgia das Horas não, em primeiro lugar, para obter mais conhecimentos, mas para viver mais profundamente o mistério de Deus, embora neste mergulho vá conhecendo sempre melhor a Deus, o Sumo Bem, que é Amor. E o Espírito de Deus, pelas virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, que reza no cristão em comunhão comia oração de Cristo.
A Liturgia das Horas é uma forma das mais excelentes do próprio apostolado. A missão da Igreja é evangelizar. Na Liturgia das Horas o ser humano é evangelizado porque imbuído de Deus em Cristo por ação do Espírito Santo. E um exercício sacerdotal em favor do povo de Deus, a exemplo de Moisés que permanecia diante da face do Senhor, enquanto "Josué combatia o inimigo, e a exemplo de Jesus Cristo, que se retirava durante a noite e permanecia em oração diante do Pai até ao amanhecer”[5].
Isso vale particularmente para os ministros ordenados. Por isso diz a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas: "A Igreja os encarrega (os ministros ordenados) da Liturgia das Horas, para que esta missão da comunidade seja desempenhada, ao menos por eles, de maneira certa e constante, e a oração de Cristo continue sem cessar na Igreja. Representando a Cristo de modo eminente e visível, o bispo é o grande sacerdote de sua grei. Dele, de certo modo, deriva e depende a vida de seus fiéis em Cristo. Por isso, entre os membros de sua Igreja, o bispo deve ser o primeiro na oração. E sua oração, ao recitar a Liturgia das Horas, se faz sempre em nome da Igreja e pela Igreja que lhe foi confiada. Unidos ao bispo e a todo o presbitério, os presbíteros, representantes especiais, também eles, de Cristo sacerdote, participam da mesma função, rogando a Deus por todo o povo que lhes foi confiado e mesmo pelo mundo inteiro. Todos esses desempenham o serviço do Bom Pastor, que roga pelos seus, para que tenham vida e sejam perfeitos na unidade. Na Liturgia das Horas, que a Igreja lhes oferece, não só encontrem uma fonte de piedade e alimento de sua oração pessoal, mas nutram e incentivem, através de intensa contemplação, sua atividade pastoral e missionária para proveito de toda a Igreja de Deus" (cf. n. 28). Eles exercem, pois, o seu ministério sacerdotal, profético e real especialmente através da Liturgia das Horas.
Na Liturgia das Horas e por meio dela, eles adquirem novo ardor para o testemunho e a ação evangelizadora. Na oração se realiza o "vinde e vede" (cf. Jo 1,39) de Jesus Cristo, seguindo-se a missão: "e anunciai". Anunciai pelo testemunho de homens de Deus, de homens orantes, desejosos de que outros participem dessa mesma experiência. Eles gerarão novas Comunidades eclesiais orantes. Diz a Instrução Geral: "Quando os fiéis são chamados à Liturgia das Horas, e se reúnem, unindo seus corações e vozes, manifestam a Igreja que celebra o mistério de Cristo. É função dos que receberam a ordem sagrada ou que foram investidos de particular missão canônica convocar e dirigir a oração da comunidade. 'Trabalhem para que todos os que se encontram sob seus cuidados vivam unânimes na oração'. Cuidem, pois, de convidar os fiéis e formá-los com a devida catequese para a celebração comunitária das principais partes da Liturgia das Horas, sobretudo nos domingos e festas. Ensinem-lhes a dela participarem de modo a fazerem autêntica oração. Por isso, ajudem-nos com a devida instrução a entenderem o sentido cristão dos salmos, de sorte que, pouco a pouco, sejam levados a maior gosto e prática na oração da Igreja" (IG, n. 22-23).
Tendo recolhido na Liturgia das Horas toda a vida da Igreja, no louvor e na intercessão, os ministros ordenados irão testemunhá-la em toda a sua ação evangelizadora, nas mais diversas dimensões da vida da Igreja, em toda a sua ação pastoral: na dimensão comunitária e participativa, animando as diversas vocações, ministérios e carismas em favor da Igreja e do mundo; na dimensão missionária em toda a sua amplitude; na dimensão catequética, aprofundando os mistérios do Reino; na dimensão celebrativa, incentivando e presidindo as Comunidades eclesiais orantes; na dimensão ecumênica e de diálogo religioso, facilitando o diálogo e valorizando as sementes do verbo em todas as pessoas de boa vontade; na dimensão sócio-transformadora, iluminando pelo exemplo e pela palavra a vocação do cristão na consagração do mundo, gerando uma sociedade mais justa e fraterna.
Na Liturgia das Horas os presbíteros exercem, em Cristo e por Cristo, as três dimensões do poder messiânico de sua vocação e missão: a de anunciar como profetas, a de santificar como sacerdotes e a de reger como reis, guias ou pastores. As três dimensões se entrelaçam, se interligam e se completam. Uma está na outra. Todas são proféticas, reais e sacerdotais. Por sua oração dão testemunho do amor de Deus, do Deus santo, santificam-se a si mesmos e são mediadores junto a Deus por seu Povo e conduzem o Povo, por seu exemplo de homens de Deus, alimentando-o e iluminando o seu caminho rumo à pátria definitiva.
Pela prática da oração explícita ajudam o povo a eles confiado a imprimir em todo o seu ser e agir a dimensão contemplativa ou orante. O homo orans ou o homo religiosus vai sendo gestado em todas as suas ações. Surge, então, aquela atitude que podemos chamar de oração atitude ou a devoção no dizer de São Francisco de Assis[6]. Temos assim o homo sapiens. O estudo, a ciência e a técnica poderão transformar-se em linguagem de comunicação do ser humano com Deus. Depois o homo faber. A luz da oração-exercício brota a espiritualidade do trabalho, como participação na obra da criação, como graça. Se é graça, como diz ainda São Francisco[7], o trabalho pode transformar-se em motivo de ação de graças a Deus e graça para o próximo e toda a natureza criada. O ser humano pelo trabalho comunica o bem, transforma-se em bênção para o próximo. Pelo trabalho ele pode comunicar-se com o Bem, com o próprio Deus. É oração-atitude, é devoção pelo devotamente a Deus e ao próximo. Depois, temos o homo ludens. O ser humano que brinca, que celebra a vida. Não basta viver; o ser humano é chamado a celebrar a vida. Ele o faz pelo lazer, pelo jogo como brinquedo, pela dança, pela confraternização através de ágapes, pelas comemorações festivas, pela arte em geral. Ele pode brincar, ele pode celebrar, porque no Cristo ressuscitado ele venceu o mal, o pecado e a morte. Tudo isso pode expressar o aqui e agora da realidade escatológica da plena reconciliação e da vida plena feliz na esperança. O homo solidarius, à luz da solidariedade de Deus para com o ser humano, manifestado em Cristo Jesus, solidariedade contemplada e vivida na Liturgia das Horas, também vai adquirindo uma dimensão religiosa. No pobre, no necessitado ele experimenta a presença do próprio Deus e com ele se comunica. Finalmente, o homo patiens. A luz da fé, na Liturgia das Horas, o presbítero mergulha sempre de novo no mistério do sofrimento. Contemplando os passos da Paixão do Senhor, sobretudo na Hora Média, ele acolhe o sofrimento na perspectiva do mistério da cruz, do mistério pascal da vida que passa pelo sofrimento e pela morte. Percebe o valor salvífico do sofrimento acolhido dentro do plano da redenção. Completa, então, em si o que falta à Paixão de Cristo. O testemunho desta fé repercutirá em sua ação pastoral, especialmente no cuidado pelos doentes e no seu relacionamento solidário com os que sofrem.
A grande missão do presbítero é justamente impregnar do Espírito de santidade, do divino, todas as realidades humanas pelo seu exemplo e sua ação pastoral.
Possuído do Espírito de santidade, sempre de novo renovado no ritmo da Liturgia das Horas em Cristo pela ação do Espírito Santo, todo o seu ministério ordenado se transformará em espiritualidade presbiteral.
Neste sentido, todo o ser e agir do presbítero se transforma num ofício divino. Ou, no significado amplo da palavra liturgia como serviço ao povo, temos o grande serviço de Deus ao povo, em continuação do serviço de salvação de Jesus Cristo a toda a humanidade realizado no mistério pascal; e, como resposta, o serviço do Povo a Deus por Cristo e em Cristo Jesus mediado pelos que estão possuídos do Espírito de santidade. É a grande liturgia vivida, que tem sua expressão excelente e sacramental na liturgia celebrada.
Nesta perspectiva, valeria a pena refletir sobre as diversas dimensões da ação evangelizadora ou da ação pastoral dos presbíteros. Pensemos na dimensão comunitária e participativa, englobando as vocações, os ministérios e os carismas; na dimensão da Igreja toda ela missionária; na dimensão catequética que aprofunda os mistérios do Reino para que sejam vividos sempre mais intensamente; na dimensão celebrativa, normalmente presidida pelos presbíteros; na dimensão ecumênica e de diálogo religioso, no profundo respeito e valorização do que Deus realiza de bom em todos os homens e mulheres de boa vontade; na dimensão sócio-transformadora, ajudando a todos a viverem sua cidadania na construção de um mundo mais justo e fraterno. Pensemos ainda nas pastorais específicas de grupos humanos e de situações particulares.
Possuindo o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar[8], tudo se transforma em espiritualidade presbiteral, participação da paternidade divina. Os presbíteros poderão encontrar na Liturgia das Horas uma maneira de vivenciar o celibato consagrado a Deus, no amor de filhos, e ao próximo, no amor de irmãos. Este amor é fecundo. Porque gera a vida divina por amor e no amor, o presbítero se torna padre, pai.
A vida do presbítero transforma-se assim numa grande ação de graças a Deus e à humanidade toda. Diz São Paulo: "Em tudo dai graças porque esta é a vontade de Deus em Jesus Cristo" (1Ts 5,18). Esta ação de graças dos cristãos tem como ponto alto a Eucaristia celebrada, o sacrifício memorial do mistério pascal de Jesus Cristo, a Ceia do Senhor. Estabelecer-se-á uma íntima relação entre a Eucaristia como sacramento do sacrifício da Cruz e a Liturgia das Horas como sacrificium laudis. Uma alimenta a outra. O sacrifício de louvor e ação de graças da Liturgia das Horas prepara a Celebração sacramental da Eucaristia. Esta, por sua vez, alimenta a Liturgia das Horas, que a prolonga através do dia. As duas formas de ação de graças, por sua vez, iluminam toda a vida, em todas as suas dimensões, e fazem com que todo o ser e agir dos cristãos se transforme numa grande ação de graças, numa eucaristia vivida.
5. O sentido cristão dos salmos
Mesmo após o Concílio Vaticano II, somos convidados a viver diariamente o mistério de Cristo na Liturgia das Horas através dos salmos. Os salmos e cânticos constituem ao menos a metade de seus textos. Não basta dizer que, rezando a Liturgia das Horas, estamos rezando em nome da Igreja. Só rezamos em nome da Igreja, se de fato nós rezarmos, se, ao rezarmos, formos Igreja rezando.
Não será o caso de entrarmos em conflito com eles, dizendo, quem sabe, serem eles expressão de uma espiritualidade do Velho Testamento. Se a Igreja sempre os usou em sua oração e se agora volta a no-los apresentar, devemos desconfiar que por detrás deles exista algo de valioso.
Os salmos e cânticos do Antigo Testamento constituem, sem dúvida, a pedra de toque da Liturgia das Horas como caminho de santidade, tanto para os ministros ordenados como para os fiéis cristãos em geral. Eles constituem um verdadeiro desafio. Importa adquirir uma compreensão vivencial dos salmos e cânticos, fazendo deles nossa oração pessoal. Mais ainda. Eles se tornam uma verdadeira escola de oração.
Para tanto, a Instrução Geral apresenta uma pista: "Ajudem-nos (aos fiéis em geral) com a devida instrução a entenderem o sentido cristão dos salmos, de sorte que, pouco a pouco, sejam levados a maior gosto e prática na oração da Igreja" (cf. n. 23). O que vale para os fiéis leigos nas Comunidades eclesiais é importante também para os presbíteros. Tudo o que se diz no Cap. III, I sobre Os Salmos e sua Função na Oração Cristã, nos n. 100-109, certamente já constitui uma grande ajuda.
O Concílio sugere a todos os cristãos uma copiosa formação bíblica, sobretudo, quanto aos salmos (cf. SC, n. 90). Para um verdadeiro apreço dos salmos como nossa oração pessoal não basta uma exegese histórica sobre o autor, o gênero literário ou as circunstâncias de sua composição. Tudo isso será útil e mesmo importante, mas não podemos parar por aí, pois a Liturgia tem uma maneira própria de ler e viver as Sagradas Escrituras em geral e de modo especial os salmos.
Apresentamos aqui algumas chaves para abrirmos o tesouro da oração em salmos, para entendermos o seu sentido cristão e podermos através deles celebrar e viver o mistério de Deus por Cristo e em Cristo pela ação do Espírito Santo.
1) A grande lei de interpretação litúrgica dos salmos
A Liturgia vive os salmos, como, aliás, toda a Sagrada Escritura, à luz do princípio da unidade do mistério de Cristo e da História da Salvação[9].
O mistério de Cristo é um só, desde o plano eterno de Deus, passando pela criação do mundo e do ser humano, a história do Povo de Deus do Antigo Testamento, o fato da encarnação do Verbo de Deus, e sua expressão no tempo da Igreja, até a consumação na parusia. Os salmos abrangem toda a história da salvação, na qual podemos distinguir quatro fases: o Antigo Testamento, Jesus Cristo, o tempo da Igreja e a consumação escatológica.
Segundo estas quatro fases podemos descobrir também a profundidade de compreensão do sentido dos salmos, inclusive o assim chamado sentido cristão.
a) A profundidade de compreensão dos contemporâneos. Neste nível, tem grande importância o estudo das circunstâncias históricas em que foram compostos, o gênero literário e outros elementos. "Procurando permanecer fiel ao sentido literal, quem salmodia se fixa na importância que o texto contém para a vida humana dos que crêem. Com efeito, é sabido que cada salmo foi composto em circunstâncias determinadas, que os títulos colocados no início procuram insinuar, segundo o saltério hebraico. Todavia, qualquer que seja sua origem histórica, cada salmo tem um sentido próprio, que nem mesmo em nossa época podemos negligenciar. Embora esses poemas tenham sido compostos há muitos séculos, por orientais, expressam muito bem as dores e esperanças, a miséria e a confiança dos seres humanos de qualquer época ou nação, sobretudo a fé em Deus, e cantam a revelação e a redenção" (IG, n. 107). "No saltério da Liturgia das Horas, cada salmo é precedido de um título que indica seu sentido e sua importância para a vida humana de quem crê. Esses títulos, inseridos no livro da Liturgia das Horas, são propostos unicamente para utilidade dos que salmodiam" (IG, n. 111).
b) Profundidade de compreensão crística ou cristã dos salmos. À luz de Cristo e em Cristo, os salmos adquirem um significado mais profundo e mais pleno. Jesus Cristo e toda a mensagem do Novo Testamento reinterpretam os salmos, fazem como que uma nova leitura dos salmos, lançando sobre eles uma nova luz: "Na Liturgia das Horas, quem salmodia não o faz tanto em seu próprio nome, como em nome de todo o Corpo de Cristo, e ainda na pessoa mesma do próprio Cristo. Aquele que tem isso bem presente resolve as dificuldades que possam surgir, ao perceber que os sentimentos de seu coração, enquanto salmodia, discordam dos afetos que o salmo expressa... No Ofício divino, os salmos em sua seqüência oficial não se cantam em particular, mas em nome da Igreja, mesmo quando alguém recita sozinho algumas das Horas. Quem salmodia em nome da Igreja poderá sempre encontrar motivos de alegria ou tristeza, porque também a isso se aplica a passagem do Apóstolo: 'Alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram' (Rm 12,1). Assim a fraqueza humana, ferida pelo amor de si própria, é curada na medida do amor com que a mente acompanha a voz de quem salmodia" (IG, n. 108). "Para fomentara oração à luz da nova revelação, acrescenta-se uma expressão do Novo Testamento ou dos Padres, que serve como convite a rezar em sentido cristológico" (IG, n. 111).
c) Profundidade de compreensão cristã ou eclesial dos salmos. O que importa mesmo é que os salmos expressem uma realidade atual. Sejam a expressão da oração da Igreja, hoje. Desde a revelação expressa no Novo Testamento até hoje, passaram-se quase 20 séculos. Aconteceu muita reflexão teológica e ação do Espírito Santo no coração dos fiéis. Pelos salmos é a Igreja que vive o seu mistério à luz de Cristo. "Quem salmodia em nome da Igreja deve prestar atenção no sentido pleno dos salmos, especialmente ao sentido messiânico, em virtude do qual a Igreja adotou o saltério. Este sentido messiânico tornou-se plenamente manifesto no Novo Testamento e foi enfatizado pelo próprio Cristo Senhor, que disse aos Apóstolos: 'Era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos' (Lc 24,44)... Seguindo esse método, os santos Padres entenderam e comentaram todo o saltério como profecia a respeito de Cristo e da Igreja. Com esse mesmo critério, escolheram-se os salmos na sagrada Liturgia. Embora, por vezes, se tenham admitido algumas interpretações algo forçadas, tanto os Padres em geral, como a Liturgia, com pleno direito, ouviram nos salmos Cristo clamando ao Pai, ou o Pai falando com o Filho, ou, inclusive, descobriram a voz da Igreja, dos apóstolos ou dos mártires" (IG, n. 109).
Esta vivência eclesial atual dos salmos é ajudada pelas antífonas que os emolduram, realçando os diversos aspectos do mistério de Cristo e da Igreja, e pelas orações sálmicas[10]. "As antífonas ajudam a ilustrar o gênero literário do salmo; fazem do salmo uma oração pessoal; acentuam algum pensamento especialmente digno de atenção e que poderia passar despercebido; conferem matiz particular a determinado salmo em certas circunstâncias; e ainda são de grande ajuda para a interpretação tipológica ou festiva, contanto que se excluam acomodações arbitrárias".
d) Profundidade de compreensão escatológica dos salmos. À luz das realidades últimas, os salmos adquirem uma compreensão ainda mais profunda e plena. O louvor à Trindade no fim de cada salmo parece abrir a visão para a totalidade da oração em salmos. "O Glória ao Pai é uma conclusão adequada que a tradição sancionou e que confere à oração do Antigo Testamento um sentido de louvor cristológico e trinitário" (IG, n. 123).
Um exemplo para esta lei da unidade do mistério de Cristo e da história da salvação. Imaginemos um salmo que tenha como tema principal o Povo de Deus. Nele a Igreja revive a experiência do povo eleito do Antigo Testamento, o novo Povo de Deus adquirido pelo sangue redentor de Cristo, o Povo de Deus que é a Igreja peregrina e, finalmente, o Povo formado por todos os eleitos na pátria celeste.
2) Algumas outras chaves de interpretação
Os salmos constituem uma síntese orante da história da salvação. Jamais podemos esquecer que o Livro dos Salmos, em linguagem sapiencial, é Palavra de Deus revelada. São uma síntese privilegiada do plano de Deus e da história da salvação porque em forma de oração. Isso é algo único na Bíblia. Nem o Novo Testamento produziu algo semelhante. Nos salmos vemos Deus falando e revelando-se na resposta orante do ser humano; é o ser humano, em diálogo pessoal, comunicando-se com o seu Deus nas mais variadas circunstâncias da vida. É o ser humano falando com Deus e a Deus sobre o próprio ser humano, sobre o mundo e as coisas, os fatos da vida, nas situações mais diversas. Nos salmos encontra-se sempre esta experiência profunda de Deus da parte do ser humano.
É preciso, então, adquirir uma visão de síntese da Bíblia, ou seja, da história da salvação; familiarizar-se com a Bíblia, com sua mensagem.
Os salmos como expressão do mistério pascal de Cristo. Sendo os salmos uma síntese orante da história da salvação, prestam-se bem para expressar o mistério de Cristo. Por meio deles podemos viver o mistério pascal de Cristo: a páscoa de Cristo e a páscoa dos cristãos. Importante é detectar as situações humanas expressas pelos salmos, onde, no fim, o bem e a justiça sempre saem vitoriosos pela ação de Deus.
Espírito comunitário e universal. Se os salmos são capazes de traduzir o mistério de Cristo, pelo fato de expressarem o mistério do ser humano, devemos formar em nós um espírito comunitário capaz de sentir as necessidades dos seres humanos e viver as preocupações da Igreja. Os salmos expressam sempre situações que valem para sempre e em toda parte.
A maioria dos salmos estão redigidos na primeira pessoa do singular. Devemos, então, aprender a alargar, a traduzir este eu. O eu dos salmos é a humanidade e o mundo inteiro que vivem no Cristo. Diz Santo Agostinho: "Reconheçamos, pois, a nossa voz nele, e a sua voz em nós"[11].
Fazendo esta descoberta, os salmos tornam-se expressão de Cristo, expressão universal do homem, expressão dos sentimentos da humanidade inteira em Cristo Jesus. Aprenderemos a não pensar somente em nós, a não restringir-nos a situações psicológicas subjetivas e momentâneas. Abrigaremos em nós e daremos expressão às alegrias e angústias da humanidade toda, às suas lutas e vitórias, aos seus gemidos de opressão e cantos de libertação.
Santidade de vida. A linguagem dos salmos é uma linguagem forte e profundamente humana. Ela traduz uma vida profundamente mergulhada em Deus. Esta sintonia com Deus traduzida pelos salmos é de importância para podermos recitá-los como nossa oração pessoal em comunhão com Cristo e toda a Igreja e a humanidade.
Os salmos traduzem santidade. Santidade significa modo de ser e de agir semelhante ao modo de ser e de agir de Deus e das coisas divinas. Os salmos falam sempre de Deus e das coisas divinas. Falam a Deus sobre as realidades criadas. Fazem Deus falar com a realidade. Por meio deles o santo vibra diante de Deus e das coisas divinas.
Todas as coisas de alguma forma são relacionadas com Deus. Neste seu relacionamento, o salmista reza, envolvendo toda a realidade. Pode-se dizer que ele se dirige a Deus de corpo inteiro, abraçando toda a realidade. Com todos os sentidos: os ouvidos, os olhos, a boca, a palavra, o olfato, o gosto, o tato, o movimento, a respiração, os rins e o coração. Ele apresenta-se de pé, ajoelhado, inclinado, sentado, andando, correndo, dormindo e acordado. Fazem-se presentes os sentimentos mais diversos entre o amor e o ódio, a ira, a inveja, o orgulho, a preguiça, a avareza. Estão presentes o bem e o mal; o pecado, a penitência, o perdão e a reconciliação; a alegria e a tristeza, a fome e a sede, a saúde e a doença; as mais diversas virtudes, como a fé a esperança e a caridade, a fortaleza, a fidelidade, a humildade; a vida com suas diversas fases: a criança, o jovem e o velho, moças e rapazes, o homem e a mulher, o amor dos esposos, a família e o povo; o exílio e a volta à pátria; a história do povo eleito, enaltecendo e dando graças pelos grandes feitos realizados por Deus, o cumprimento das promessas e a esperança nas promessas a serem realizadas no futuro; a presença de Deus no meio do seu povo no Templo de Jerusalém, os seus inumeráveis atributos; a pobreza e a riqueza, a dor e a alegria, a festa, a música e as danças, as lutas, as derrotas, a guerra e a paz, a morte, o luto e o pranto; os elementos da natureza como o amanhecer e o anoitecer, o sol e a chuva, o frio e o calor, os ventos e as tempestades, e o tempo sereno; os astros como o sol, a lua e as estrelas; a terra com seus variegados frutos, as fontes das águas, os oceanos e os mares; as plantas, os animais terrestres, celestes e aquáticos, as montanhas, as colinas e os vales; os desertos e as florestas, as campinas e os férteis campos arados. Nada escapa. Tudo se transforma em motivo de admiração, de ação de graças, de queixa, de pedido e de intercessão.
Uma experiência gratificante é tomar os salmos e tentar descobrir estes diversos aspectos: como eles constituem oração, como o eu dos salmos pode expressar a vida da humanidade toda em Cristo, como os salmos falam de Deus ou a Deus sobre o mundo e o ser humano em suas mais diversas situações. Este processo de descoberta pode ser lento, mas aos poucos se vai descobrindo sua beleza ímpar. Feita tal descoberta, todas as outras composições humanas, inclusive os hinos, se empalidecem diante dos salmos.
3) Os salmos contam a vida do ser humano
Nos salmos podemos identificar a nossa vida e a vida de toda a humanidade. Neles encontramos a história da humanidade, desde a criação até a parusia, a história de cada um de nós, desde as nossas origens até a consumação. Podemos dizer que os salmos evocam e expressam o mistério de Cristo, e logicamente o mistério do ser humano, em toda a sua plenitude.
Um ótimo meio para descobrir tudo isso é agrupar os salmos em dez grandes temas, em que podemos encontrar a história da salvação, todo o mistério de Cristo e a história de cada um de nós. Não se trata de um agrupamento conforme o gênero literário, mas na linha da unidade do mistério de Cristo e da história da salvação, em que cada um poderá identificar-se. Claro que num mesmo salmo podem ocorrer vários temas; e podemos descobrir mais temas além desses dez. Aqui se trata do tema central de cada salmo. Não indicarei aqui todos os salmos de um determinado tema. Apenas um exemplo.
a) Criação e providência. O tema da criação do mundo e do ser humano está muito presente no saltério. O exemplo mais típico é o S1 8. Este salmo deve ser visto e vivido no contexto dos demais salmos e dos outros livros do Antigo Testamento que falam da criação do mundo, do ser humano e da providência de Deus em relação aos mesmos. Mas não podemos parar aí. À luz do mistério da encarnação do Verbo de Deus, este salmo adquire uma nova dimensão, pois Jesus Cristo é o princípio e o fim de toda a obra da criação. Assim os livros do Novo Testamento, sobretudo o Prólogo de São João, as cartas de São Paulo e a visão de São Pedro e do Apocalipse sobre o novo céu e a nova terra, lançam uma nova luz sobre este salmo. E não devemos esquecer todo o pensamento filosófico e teológico, a contribuição das ciências e da experiência mística sobre a criação durante 20 séculos de reflexão, pesquisa e vivência cristãs. Quando, então, rezamos o S1 8, quando o fazemos nosso com Cristo e em Cristo, vivemos nele o mistério da criação do mundo e do ser humano, a providência de Deus no Antigo Testamento, a encarnação do Verbo de Deus, sua ressurreição, Maria, nossa vida, nossa vida nova pelo batismo e a futura ressurreição com Cristo e Maria na parusia. Trata-se, pois, de recolher toda essa realidade e expressá-la em Deus através desse salmo.
b) O povo de Deus. Sempre dentro da unidade do mistério de Cristo e da história da salvação, abrangendo suas quatro fases, podemos vivenciar como oração diversos salmos do tipo histórico. Deus elege, separa e forma um povo. Restaura-o quando lhe é infiel. Assim, o povo eleito do Antigo Testamento é tipo e figura do novo povo de Deus, a Igreja. Por isso, o que se diz do povo de Deus escolhido, guiado e alimentado por Ele, diz-se de fato, à luz de Cristo, da Igreja e de cada cristão. Quando o salmo fala de Jacó, de Israel, de Judá, não se trata mais simplesmente dessas figuras vétero-testamentárias, mas do novo povo de Deus, a Igreja. Lembramos aqui o Sl 134.
c) O rei, chefe do povo de Deus. O povo de Deus, por Ele escolhido e guiado, tem um chefe. Este é o tema dos salmos que cantam a figura do rei. No seu sentido literal e dos contemporâneos, o rei é Saul, Davi, Salomão etc. Na nova ordem, o chefe do povo de Deus, a Igreja, é Jesus Cristo. Transpondo, na visão unitária do mistério de Cristo, estes salmos referem-se a Cristo. Não somente a Jesus Cristo, mas a todos os cristãos, enquanto pelo batismo participam da dignidade real de Cristo, das realidades do Reino de Deus. Cantando estes salmos, teremos em mente os reis de Israel, o Cristo Senhor sobre a vida e a morte, os cristãos como filhos e filhas de Deus e o Reino da glória eterna dos eleitos. Os Salmos 19 e 20 são protótipos bem ilustrativos.
d) Jerusalém, capital do povo de Deus. Jerusalém é um tema rico em significado. Numa visão de conjunto, teremos em mente a cidade santa de Jerusalém, capital do povo de Israel, a Jerusalém que Jesus amava e buscava, a Igreja e a Jerusalém celeste. É importante neste tema penetrar no simbolismo de Jerusalém. É a capital do povo de Deus, escolhida e amada por Deus, por Ele protegida e ornada de glória. Centro espiritual e de unidade do povo eleito, destinada a tornar-se centro glorioso de salvação quando chegasse o Messias. A cidade de Jerusalém está bem no coração de Jesus. A Jerusalém terrestre é tipo da Igreja e da Jerusalém celeste. Os cuidados de Deus pela Jerusalém terrestre podem aplicar-se perfeitamente à Igreja. Cantar a glória de Jerusalém é o mesmo que cantar a glória da Igreja e de cada fiel. Sirva de exemplo o Sl 47.
e) O Templo de Jerusalém. É uma série de salmos que têm o Templo de Jerusalém como tema principal. Estamos diante de salmos de expressão mística, de profunda comunhão com Deus. É importante abordá-los na dimensão da simbologia do templo. Conforme a etimologia da palavra, templo é o lugar separado do profano, onde habita a divindade. Em Israel, o templo e a arca são o lugar da especialíssima habitação de Deus no meio de seu povo, de sua presença protetora da cidade santa, da manifestação de sua glória. É o lugar do encontro especial entre Deus e o seu povo, o coração da nação, o lugar, por excelência, da oração, das aspirações mais santas de todo piedoso judeu, é o lugar da presença do sacerdócio e do culto do povo. Para Jesus o templo é a casa do Pai. Lá ele permanece aos 12 anos (cf. Lc 2,41-52); com veemência ele exige que a casa de Deus seja respeitada (cf. Jo 2,13-32). Jesus mesmo nos dá a chave de interpretação do significado do templo, relacionando-o com seu corpo (cf. Jo 2,21). A partir da encarnação e da ressurreição de Cristo, de per si já não existem templos materiais, lugares da habitação da divindade. O próprio Filho de Deus feito homem é a morada de Deus entre os homens (cf. Jo 1,14). Portanto, o que se diz nos salmos do templo, diz-se de Cristo, em quem o divino e o humano coabitam, convivem, são uma só pessoa. O que vale de Jesus Cristo, vale de Maria e vale de todo cristão. Assim, o desejo de viver no templo é o desejo do ser humano de viver esta íntima comunhão com Deus. Temos aqui como típico o Sl 83.
f)A lei do povo de Deus. O tema da lei é bastante freqüente nos salmos em geral, embora apareça como tema principal apenas no Sl 18B e no Sl 118. Este último, um salmo alfabético, é o mais extenso, estando os seus 176 versículos agrupados em 22 partes. Ele ocorre sobretudo na Hora Média. No sentido literal dos contemporâneos, trata-se da lei de Moisés: sua origem divina, sua natureza como manifestação da sabedoria e do amor divinos, guia seguro de uma vida conforme a vontade de Deus, único caminho que leva à verdadeira felicidade. O jovem salmista de alma vibrante a faz objeto de seu canto. Pede a Deus que lhe dê inteligência para compreendê-la e força para observá-la. À luz do Novo Testamento, Jesus Cristo apresenta-se como caminho, verdade e vida. É ele a manifestação plena da vontade do Pai. Na meditação da lei podemos, pois, descobrir a lei da graça, a lei da liberdade dos filhos de Deus (cf. Gl 5,16-26), a lei do novo mandamento da caridade, enfim, a lei do Evangelho de Jesus Cristo. Tudo quanto se diz da lei, pode-se dizer de Jesus Cristo. A palavra lei, ou outra equivalente, aparece em cada versículo do salmo. Podemos, então, substituí-la mentalmente por Jesus Cristo. Estaremos, assim, meditando sobre Jesus Cristo na vida da Igreja, da humanidade e de cada um de nós. Veremos como nesta perspectiva o salmo se reveste de uma riqueza cristológica extraordinária. Situando este salmo na Hora Média, ele nos lança fundo no mistério de Cristo, verdadeiro bálsamo no meio da nossa jornada. Assim refeitos por Cristo, caminho, verdade e vida, poderemos solidarizar-nos com o clamor da humanidade nos salmos que se seguem.
g) Os inimigos do povo de Deus. Este é certamente o tema mais difícil de se transpor para uma visão cristã. Por causa dessa dificuldade três salmos, os salmos 57, 82 e 108, foram omitidos na recitação comum. De outros deixaram-se fora alguns versículos. Contudo, uma vez transpostos para uma visão cristã, tornam-se orações que traduzem realidades humanas muito concretas e profundas. Na compreensão dos contemporâneos, os inimigos do Povo de Israel eram considerados inimigos de Deus e, como tais, deviam ser vencidos e eliminados. Numa transposição cristã, o novo Povo de Deus, a Igreja, suscitada por Deus e guiada por Cristo, com uma lei, a caminho da pátria eterna, também está rodeada de inimigos. A luta entre o bem e o mal continua hoje na Igreja e existe em cada cristão. Assim, a Igreja e cada fiel podem fazer suas as orações em que o piedoso israelita pede proteção contra o inimigo e eleva hinos de agradecimento a ele pela proteção recebida. A dificuldade maior encontra-se nos salmos imprecatórios. Será necessário colocar-se na perspectiva do Novo Testamento, da nova lei, da lei do perdão e do amor aos inimigos. Jesus Cristo veio aperfeiçoar a lei. Mandou amar os inimigos e fazer o bem aos que nos perseguem e caluniam (cf. Mt 5,43-48). São Paulo diz: "Abençoai os que vos perseguem, abençoai-os e não praguejeis" (Rm 12,14). Assim, à luz do Novo Testamento, à luz de Cristo, da nova lei, os inimigos pessoas deverão ser vistos como símbolo ou figuras do mal, do pecado, dos inimigos que existem em cada pessoa, como as raízes dos pecados capitais, do egoísmo, ou, se quisermos, de satanás. E quanto ao homem pecador, o desejo do cristão só pode ser que se converta e viva (cf. 1Tm 2,4), pois todos os seres humanos são chamados a participarem da vida e da felicidade em Deus. Além disso, mais de uma vez nós nos surpreendemos numa atitude vétero-testamentária em relação aos inimigos, aos que nos perseguem e caluniam. Esses salmos tornam-se, então, um desafio no nosso relacionamento com eles, segundo a mensagem do Evangelho. À luz de São Paulo aos Coríntios, Santo Agostinho apresenta uma interpretação muito significativa dos últimos versículos do SI 136, omitidos na Liturgia das Horas. Os versículos finais dizem: "Ó filha da Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhos para os destruir contra uma pedra". Pergunta Santo Agostinho: "Quem são os recém-nascidos da Babilônia? Os maus desejos, quando estão nascendo...; enquanto são pequenos, abate-os... Abate-os contra uma pedra: Pois a pedra era Cristo (1Cor 10,4)[12]. Ele apresenta a mensagem do salmo à luz de Cristo, à luz da unidade da história da salvação. Podemos, pois, pedir que Deus destrua em nós as raízes do mal, o pecado. Pode-se ver, entre outros, o Sl 43.
h) O pecador arrependido no Povo de Deus. Aqui a transposição não é difícil. O novo Povo de Deus, assaltado por inimigos em sua marcha para a pátria definitiva, como o antigo, tem suas quedas, peca por ingratidão e infidelidade. É sempre de novo necessitado de conversão e penitência, de misericórdia e de perdão. Se o antigo povo de Deus tinha consciência de sua infidelidade à aliança, aos benefícios de Deus em sua história, quanto mais o novo Povo de Deus, a Igreja, depois que o Senhor lhe manifestou o seu amor e o cumulou de benignidade e misericórdia em Cristo Jesus.
i) O justo, pobre, no Povo de Deus. O tema do justo, do piedoso israelita, do homem temente a Deus, do pobre, diante do sofrimento e da provação, ocupa a maior parte do saltério. Por estes salmos, o justo, caminhando para a pátria, fraco, perseguido e caluniado, dirige-se a Deus em oração nas diversas circunstâncias da vida, pedindo auxílio, expressando sua confiança, agradecendo a Deus os benefícios recebidos, ou cantando a sorte diferente do piedoso e do ímpio, do justo e do pecador. Ora, tudo quanto vale para o justo do Antigo Testamento, vale, de modo mais perfeito, para o justo do Novo Testamento. Este ideal do justo foi realizado em primeiro lugar por Jesus Cristo, o justo por excelência e modelo de todos os justos. Podemos, portanto, aplicar todos esses salmos a Jesus Cristo. Mas Jesus Cristo prolonga-se nos cristãos, que formam o seu Corpo. O ideal de justiça e santidade realiza-se também em cada santo e justo da nova economia. Experimentaremos na oração o homem temente a Deus implorando seu auxílio nas várias circunstâncias difíceis da vida, especialmente contra as perseguições dos inimigos, dos pecadores, dos incrédulos e caluniadores. Hoje podemos incluir todos os tipos de opressores. Temos aqui, por exemplo, a primeira parte do Sl 21, colocada nos lábios de Cristo na Sexta-feira Santa. Realmente, haverá sempre quem sofra, quem seja perseguido, caluniado e oprimido. Fazendo nossos esses salmos, é Cristo continuando a clamar ao Pai em nós e por nós, que somos o seu Corpo. O eu desses salmos é Cristo e, em Cristo, toda a humanidade, que continua a dirigir-se ao Pai através de cada cristão em prece e através da comunidade reunida em oração. O mesmo justo, nas várias circunstâncias difíceis da vida, expressa a Deus a plena confiança que deposita nele. Veja-se o Salmo 26. Depois, o justo eleva a Deus a sua oração de agradecimento e louvor, após os benefícios recebidos. Nestes salmos transparece que, apesar de todo sofrimento e de toda injustiça, no fim, o bem e a justiça saem vitoriosos pela intervenção de Deus. Os justos serão recompensados. É típico o S1 22. Há salmos em que o salmista canta a sorte diferente do homem piedoso e do ímpio,do justo e do pecador. São os salmos com a temática dos dois caminhos, ou da árvore plantada à margem do rio e da outra em terra seca. Pode servir de exemplo o SI 1.
j) O louvor dos atributos de Deus e convites para louvá-lo. Podemos dizer que a maioria dos salmos louvam de alguma maneira a Deus por seus atributos. Mas temos uma série de salmos que têm como tema principal o louvor a Deus por seus atributos ou o convite para louvá-lo. Transparece aqui o aspecto escatológico do mistério de Cristo, sua consumação. O fim último do ser humano é o louvor de Deus. Fomos criados para celebrar a glória do Pai (cf. Ef 1,11-12). Se o louvor de Deus já constituía uma aspiração do salmista do Antigo Testamento, quanto mais o cristão deverá cantar os atributos de Deus, manifestados de modo imensamente mais profundo e magnífico em seu Filho Jesus Cristo, na Igreja, nas realidades da vida íntima dos cristãos e na realidade escatológica já antegozada. Temos uma série de salmos que cantam a Deus como rei universal, poderoso, salvador, santo, juiz justo de Israel e do mundo: Salmos 92 a 98.0 salmo 102 canta a clemência de Deus; o salmo 112, sua alteza e benignidade; o salmo 138, sua onipotência, onisciência e onipresença; o salmo 144, sua majestade e bondade. Os salmos 116 e 150 são convites gerais para o louvor de Deus. O salmo 116, o menor do saltério e talvez o mais universal, convida a louvar a Deus por sua misericórdia e fidelidade. O salmo 150 convida a louvar a Deus por seus portentos e sua majestade.
Como vimos, toda a vida humana tem lugar nos salmos. Importa viver o mistério que é desvelado através das fórmulas dadas. Os salmos são sempre novos porque sempre profundamente humanos. Eles nos apresentam todo o mistério de Cristo e nós o captamos na medida de nossa capacidade e da nossa abertura à ação do Espírito Santo, que reza em nós.
Feita esta iniciação laboriosa e lenta, como alguém que escava o duro chão em busca de pedras preciosas, talvez possamos exclamar como aquela jovem religiosa, extasiada diante do tesouro contido nos salmos, ao término de uma exposição sobre o sentido cristão dos mesmos: "Mas, por que na Liturgia das Horas não rezamos somente em salmos?" Realmente, fora o Pai-nosso, e as Orações eucarísticas de Consagração, parece não existir oração mais humana e mais divina do que os salmos.
Finalizando, na Liturgia das Horas não basta trocar de livros. Tudo será muito estranho e complicado, principalmente para iniciantes, se não houver uma verdadeira iniciação teórica e prática nela. Esta iniciação, além de constar de uma introdução na teologia e na espiritualidade da Liturgia das Horas, deverá introduzir numa compreensão vivencial dos salmos, de tal modo que, à luz da unidade do mistério de Cristo, eles se tornem de fato uma oração pessoal, vivida normalmente em assembléia orante. Então sim, “podemos com as palavras dos salmos orar muitas vezes com mais facilidade e fervor, seja dando graças e louvando a Deus com alegria, seja suplicando-o desde as profundezas de nossas angústias” (LG, 105). Tomando este rumo, certamente a Liturgia das Horas transformar-se-á num seguro caminho de santidade.
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[1] BECKHÄUSER, A., O Sentido da Liturgia das Horas, Vozes, Petrópolis 1995.
[2] Cf. IG, n. 24. IG = Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas.
[3] Em breve os diáconos permanentes, os religiosos que não são chamados a todo o ciclo diário da Liturgia das Horas e os fiéis leigos em geral, terão parte da Liturgia das Horas num único volume, contendo Laudes, Oração das Doze Horas, Vésperas e Completas.
[4] Cf. Santo Domingo. Nova Evangelização, Cultura Cristã e incuituração. Texto Oficial da CNBB. IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, Vozes, Petrópolis 1992, n. 31.
[5] Cf. Me 1,35; 6,46.48; Mt 14,23.25; Le 5,16; 6,12.
[6] Cf. Regra bulada, cap. 5, Escritos e biografias de São Francisco de Assis, 2° ed., Vozes-Cefepal, Petrópolis 1982, p. 135; Carta a Santo Antônio de Pádua, ibidem, p. 75.
[7] Ibidem, p. 135.
[8] Cf. São Francisco de Assis, Regra bolada, op. cit., p. 138.
[9] Estas pistas se inspiram no grande teólogo e liturgista Cipriano VAGAGGINI, II senso teologico delta Liturgia, 4° ed., Ed. Paoline, Roma 1965, p. 427-456.
[10] Ainda por serem publicadas num previsto V Volume suplementar da Liturgia das Horas. Sobre as orações sálmicas, cf. IG, n. 112.
[11] Enarrationes in psalmos,85, 1.




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