Aprendi uma série de lições com minha experiência da floresta.
Desde criança tenho grande fascínio pelas matas, pela floresta. Criado na roça, boa parte do terreno de meu pai ainda era coberta de floresta virgem.
No meio do dia e mesmo durante o trabalho na roça, sentia-me atraído pela mata. Entrava na floresta e lá permanecia sentindo-me envolvido pela natureza. Contemplava as árvores enormes, a vegetação rasteira, as flores, as folhas, os caetés. Ouvia o cantar dos pássaros o ruído dos insetos, numa sensação única de vaga nostalgia e de profunda paz.
No ano de 2006, agora com 70 anos, tive a graça de renovar a experiência da floresta durante quatro meses no grande retiro nas encostas do Monte Subásio, terra natal de São Francisco de Assis. Era o passeio diário pelos bosques ao longo do Vale, onde se situa o Eremo delle Carceri, em que Francisco e seus primeiros companheiros contemplavam a Deus através da experiência da natureza. Havia o bosque e, nele, as diversas cavernas.
Em dezembro de 2009, tive a graça de renovar a experiência da floresta, acompanhando o Grupo de Dança da Terceira Idade, de Forquilhinha, num passeio a um hotel-fazenda nas cabeceiras do Rio São Bento perto de Nova Veneza, SC. Enquanto o grupo fazia suas reflexões de encerramento de ano, adentrei-me na floresta situada no terreno da pousada. Agora, com mais consciência, fiz a experiência da floresta, tirando dela várias lições para a vida.
Na floresta podemos contemplar e vivenciar o convívio harmonioso da natureza. Árvores imponentes e frondosas. Árvores menores, arbustos, ervas, capim. Trepadeiras, cipós, plantas alimentando-se das árvores maiores: orquídeas, bromélias, cactos, todo tipo de baraços, trepadeiras e de plantas parasitas. Palmeiras, palmitos e coqueiros; caetés e samambaias. Tudo numa grande harmonia sob a cúpula do céu e o chão da terra. O céu e a terra aí se encontram e se unem em casamento fecundo. O senhor irmão sol a realçar as cores com seu brilho. A mãe terra oferecendo a seiva. Estamos diante da beleza, reflexo da própria Beleza, o Deus Criador.
Vemos as flores a enfeitar o jardim. As belíssimas bromélias com suas enormes flores vermelhas brotando do verde carregado das árvores. Tantas outras flores, até as pequeninas, das mais variadas cores se fazem presentes, em humilde rastejar.
Os pássaros, os insetos, as aranhas com suas belas teias a acolherem o sereno. Algum pequeno animal, uma rã, um sapo. De repente, um regato a murmurar entre as pedras. O ar se movimenta em leve brisa a animar a vida. Todas, notas de uma grande sinfonia.
Sinto-me parte do criado. Sinto-me totalmente envolvido. A respiração, o pulsar do coração, todo o ser entra no ritmo da floresta. A comunhão com a natureza se dá através de todos os sentidos. Os ouvidos percebem os sons. A vista contempla as cores, as formas desde o tronco da árvore até a pétala da pequenina flor. O olfato se encarrega de acolher os variados perfumes. Alguma fruta dá a oportunidade de degustar os produtos da terra. O tato me coloca em íntima comunhão física com todos os seres. Por ela a natureza é sentida.
Impressionante a sinfonia do silêncio, a harmonia de todos os elementos da floresta. Todas as criaturas se respeitam. Ninguém domina. Todas estão a serviço umas das outras. Cada uma tem seu lugar. Todas convivem na mais perfeita harmonia. Tudo é paz.
Inúmeras são as lições oferecidas pela floresta! Pensemos na humildade, na solidariedade entre grandes e pequenos, no respeito mútuo, na consideração, na unidade na diversidade, na total interdependência, no serviço.
Oh! Se a família, as comunidades eclesiais e religiosas e a sociedade aprendessem as lições da floresta!
A experiência da floresta nos pode levar à reconciliação conosco, com o próximo, com Deus e toda a natureza criada. A experiência da floresta nos traz uma paz profunda. Não basta olhá-la de longe. É preciso penetrar nela, deixar-se envolver e imbuir por ela, identificar-se com ela. Também através da natureza Deus fala ao coração do ser humano.
Obras do Senhor, bendizei ao Senhor!
Frei Alberto Beckhäuser, OFM
Fonte: http://www.franciscanos.org.br/itf/artigos/2010/004.php







