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Fidel e o Papa

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tn_620_600_papa_e_fidelBento 16 acaba de visitar o México e Cuba. Ele já tinha visitado o Brasil em 2007. E já tem outra viagem marcada para o nosso país, no ano que vem. Não era conveniente visitar pela segunda vez o Brasil, sem antes ir ao menos para algum outro país da América Latina. Assim, foi ao México, e aproveitou para visitar também Cuba.

O momento mais pitoresco da visita a Cuba foi, certamente, o encontro do Bento 16 com Fidel Castro. Pelos relatos, a conversa foi uma troca de amabilidades, como convinha para o momento. Na verdade, os recados já tinham sido dados, de maneira sutil, na homilia da missa que precedeu o encontro de ambos. O Papa aproveitou as leituras do dia, para ir direto ao assunto.

Da história dos três jovens na fornalha, no exílio da Babilônia, sob o comando do soberano Nabucodonosor, Bento 16 tirou a lição da prioridade que a fé possui, para formar as consciências e ditar o procedimento das pessoas: “os três jovens preferiam morrer queimados pelo fogo que trair a sua consciência e a sua fé”.

Em poucas palavras, está posto o direito de todos se guiarem sua consciência pelos ditames de sua fé. Em seguida, Bento 16 aborda o assunto que lhe é muito caro, ao qual volta com insistência: a estreita ligação entre a verdade e a liberdade, entre a fé e a razão: “Com efeito, a verdade é um anseio do ser humano, e procurá-la supõe sempre um exercício de liberdade autêntica.”

O Papa não perde tempo. Aborda em seguida a questão das ideologias, que cegam a inteligência humana, impedindo-a de encarar a verdade de maneira livre e ao mesmo tempo comprometida. Primeiro estigmatiza o ceticismo e o relativismo, afirmando: “Muitos, todavia, preferem os atalhos e procuram evitar essa tarefa. Alguns, como Pôncio Pilatos, ironizam sobre a possibilidade de conhecer a verdade, proclamando a incapacidade do homem de alcançá-la ou negando que exista uma verdade para todos... como no caso do ceticismo e do relativismo”

Em seguida, o Papa questiona o fechamento ideológico, constando que... “Há outros que interpretam mal esta busca da verdade, levando-os à irracionalidade e ao fanatismo, pelo que se fecham na SUA verdade» e tentam impô-la aos outros. Aí o Papa volta ao assunto que lhe é muito caro: O relacionamento entre fé e razão: “Fé e razão são necessárias e complementares na busca da verdade. Deus criou o homem com uma vocação inata para a verdade e, por isso, dotou-o de razão. Certamente não é a irracionalidade que promove a fé cristã, mas a ânsia da verdade. Todo o ser humano deve perscrutar a verdade e optar por ela quando a encontra, mesmo correndo o risco de enfrentar sacrifícios.”
Em decorrência destes pressupostos, Bento 16 aborda a questão da ética, que se constitui em plataforma comum em torno de valores fundamentais, em cuja defesa todos podemos nos encontrar. “A verdade sobre o homem é um pressuposto imprescindível para alcançar a liberdade, porque nela descobrimos os fundamentos duma ética com que todos se podem confrontar... É este patrimônio ético que pode aproximar todas as culturas, povos e religiões, as autoridades e os cidadãos, os cidadãos entre si, os crentes em Cristo com aqueles que não crêem n’Ele”.

No contexto dos valores éticos, Bento 16 fundamenta o direito que o cristianismo tem, não de impor, mas de propor o chamado de Cristo “para conhecer a verdade que nos torna livres”. Poucas vezes um sermão foi tão bem endereçado. Não só para Fidel. Mas para todos que desejam praticar a liberdade de pensamento, e ao mesmo tempo, assumir o compromisso com a verdade. Assim poderemos superar o fanatismo que cega, e o descompromisso que aliena.

E quem quiser se aventurar pelo caminho da fé, sempre acompanhado pela razão, poderá encontrar Jesus Cristo, “que é a verdade em pessoa e nos impele a partilhar este tesouro com os outros”.
Dom Luiz Demétrio Valentini; Bispo de Jales/SP
Fonte: cnbb.org.br

 

 

Rumos e riscos

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SAM_0792A cidadania como vivência de deveres e direitos inclui também o compromisso e o desafio de lançar, permanentemente, um olhar perscrutador sobre a realidade. A grande responsabilidade cidadã quanto aos rumos da história precisa sempre ser destacada. Já agora, na segunda década deste terceiro milênio, as análises vão estampando as marcas históricas do século 20, construídas em grande parte pela intervenção humana.

Os avanços e conquistas foram incontáveis. Até admiráveis, quando se contabilizam os progressos científicos, os engenhos tecnológicos, a força sedutora, por isso não menos pesada, do fenômeno da globalização. Mudanças determinantes, ditadas pela ciência e pela tecnologia, que têm avançado inteligentemente - seja pela capacidade de manipular geneticamente a própria vida dos seres vivos, ou a de criar uma rede de comunicação de alcance mundial.

Este é um tempo no qual a história alcançou uma aceleração espaventosa produzindo mudanças grandes. No Documento de Aparecida, nº 35, os bispos latino-americanos e caribenhos sublinham que “essa nova escala mundial do fenômeno humano traz consequências em todos os campos da vida social, impactando a cultura, a economia, a política, as ciências, a educação, o esporte, as artes e também, naturalmente, a religião”. Estas transformações, em razão dos rumos tomados ou dados, têm atingido de maneira preocupante o tesouro que pertence à pessoa humana, a abertura à transcendência.

O tesouro da pessoa humana não pode ser resumido apenas no que é admirável nas conquistas científicas e tecnológicas. Aqui se põe um enorme desafio, que inclui a compreensão do indivíduo na sua abertura sacrossanta para a transcendência, como algo seu constitutivo e inalienável. Sua desconsideração, ignorância ou manipulação, em razão de interesses utilitaristas, produz prejuízos e riscos para os rumos da história. Como no passado, agora também, e de maneira não menos preocupante, temos o horizonte da sociedade contemporânea povoado de relativizações éticas advindas do fechamento e da incompetência para a compreensão e vivência deste tesouro que é a abertura à transcendência.

É irrenunciável o princípio de que a pessoa humana é aberta ao infinito, isto é, a Deus. Esta abertura é caminho para a verdade e para o bem absolutos. Também é esta comunhão com Deus que capacita para o encontro com o outro e com o mundo. Sem esta abertura ao transcendente nenhuma pessoa consegue sair de si. Torna-se prisioneira, facilmente e cotidianamente, de uma condição egoística da própria vida. É a transcendência que capacita a pessoa a entrar numa relação de diálogo e de comunhão. A sociedade não pode e não consegue, com o indispensável equilíbrio, organizar-se e configurar-se sem que se respeite e se cultive a capacidade própria da pessoa de transcender.

É ilusão pensar e buscar uma sociedade justa quando se desrespeita a dignidade transcendente da pessoa humana. O primado de cada ser humano tem a prerrogativa de orientar a consciência e definir direções e configurações para todos os programas sociais, científicos e culturais. Não sendo assim, a pessoa será, inevitavelmente, instrumentalizada para projetos econômicos, social, político, por qualquer autoridade. Não raramente, em nome de pretensos progressos e da modernização da comunidade civil. Aqui está o “nó difícil de desatar” da questão ética na sociedade contemporânea, pensando mais diretamente a de nosso país. Todos são chamados a refletir sobre o futuro que deve ser buscado, o que exige o princípio irrenunciável da transcendência. Num rol de muitas questões sérias e preocupantes, devemos incluir a que trata sobre a grave cultura abortista, a investida irracional contra símbolos religiosos, ou a morosidade ética para a convicção da aplicação da chamada “Lei da Ficha Limpa”.

A orquestração que órgãos internacionais fazem ao celebrar acordos, por exemplo, com países emergentes da América Latina, beneficiando projetos para o desenvolvimento, em troca de controle demográfico que fomentam posições e entendimentos favoráveis ao crime do aborto, merece reação e posicionamento claro de todos.

Há manipulações na compreensão envolvendo os direitos da mulher para construir argumentos que justifiquem o atentado homicida contra a vida do nascituro. Este equívoco, resultado da falta de sentido e respeito à transcendência, atinge a família, num claro desígnio de sua desconstrução e vai se infiltrando no sistema educacional. Estes rumos estão produzindo riscos graves. É preciso reagir e lutar pelo respeito e obediência ao princípio da transcendência.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo; Arcebispo de Belo Horizonte (BH)

Fonte: cnbb.org.br

A força do deserto

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foto_pegadas_na_areiaNa correria da vida, fonte de stress dos tempos modernos, é fundamental tirar momentos para outras experiências. Muitos vão para as chácaras, para sítios e lugares onde possam ter mais contato com a beleza e as riquezas contidas na natureza.
No tempo de Jesus, ir para o deserto era ficar na margem da sociedade, experimentar as condições dos leprosos que não podiam ter contato com os “puros” e com quem não tinha essa doença contagiante. Constituía um verdadeiro “tabu” para o povo.
Indo para o deserto, Cristo supera o preconceito e vai ao encontro dos leprosos, que eram intocáveis. Jesus acaba ocupando o lugar desses doentes, agindo com autoridade e compaixão. Conforme a Lei, Ele não podia tocar no leproso, mas não levou em conta isto.
A intenção de Jesus era a reintegração dos marginalizados numa atitude totalmente além da compaixão, de neutralização dos mecanismos que geram a exclusão. Ele age com verdadeira solidariedade, tendo como base o amor ao próximo.
Essa prática não tinha em vista sucesso pessoal, mas o bem das pessoas, contra as atitudes de exclusão casadas pela cultura do tempo. Era Deus, em Jesus Cristo, visitando seu povo, superando as forças do mal, vistas como obra de espírito mau.
No deserto Jesus cura um leproso. Toca nele e diz: “sê purificado”. Ele dá um sinal do Reino, da vida e da qualidade de vida. O curado não esconde sua felicidade, fazendo Jesus assumir seu lugar no deserto para ficar distante do assédio do povo.
A prática de compaixão de Jesus faz crescer a oposição das autoridades religiosas, porque Ele mostra que fazer o bem é mais importante do que seguir as exigências da Lei dos judeus. Enquanto a Lei marginaliza os “impuros”, Jesus os integra na convivência social.
Vivemos sob a lei do mercado, da competição e da exclusão. Perdemos a mística da fraternidade e partilha. Só a força do deserto, da espiritualidade será capaz de fragilizar essa lei. O mundo saudável é conforme o sonho de Deus, que deve ser conquistado por nós.
Dom Paulo Mendes Peixoto, bispo de São José do Rio Preto - SP

Lições da Floresta

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SAM_0419Aprendi uma série de lições com minha experiência da floresta.

Desde criança tenho grande fascínio pelas matas, pela floresta. Criado na roça, boa parte do terreno de meu pai ainda era coberta de floresta virgem.

No meio do dia e mesmo durante o trabalho na roça, sentia-me atraído pela mata. Entrava na floresta e lá permanecia sentindo-me envolvido pela natureza. Contemplava as árvores enormes, a vegetação rasteira, as flores, as folhas, os caetés. Ouvia o cantar dos pássaros o ruído dos insetos, numa sensação única de vaga nostalgia e de profunda paz.

No ano de 2006, agora com 70 anos, tive a graça de renovar a experiência da floresta durante quatro meses no grande retiro nas encostas do Monte Subásio, terra natal de São Francisco de Assis. Era o passeio diário pelos bosques ao longo do Vale, onde se situa o Eremo delle Carceri, em que Francisco e seus primeiros companheiros contemplavam a Deus através da experiência da natureza. Havia o bosque e, nele, as diversas cavernas.

Em dezembro de 2009, tive a graça de renovar a experiência da floresta, acompanhando o Grupo de Dança da Terceira Idade, de Forquilhinha, num passeio a um hotel-fazenda nas cabeceiras do Rio São Bento perto de Nova Veneza, SC. Enquanto o grupo fazia suas reflexões de encerramento de ano, adentrei-me na floresta situada no terreno da pousada. Agora, com mais consciência, fiz a experiência da floresta, tirando dela várias lições para a vida.

Na floresta podemos contemplar e vivenciar o convívio harmonioso da natureza. Árvores imponentes e frondosas. Árvores menores, arbustos, ervas, capim. Trepadeiras, cipós, plantas alimentando-se das árvores maiores: orquídeas, bromélias, cactos, todo tipo de baraços, trepadeiras e de plantas parasitas. Palmeiras, palmitos e coqueiros; caetés e samambaias. Tudo numa grande harmonia sob a cúpula do céu e o chão da terra. O céu e a terra aí se encontram e se unem em casamento fecundo. O senhor irmão sol a realçar as cores com seu brilho. A mãe terra oferecendo a seiva. Estamos diante da beleza, reflexo da própria Beleza, o Deus Criador.

Vemos as flores a enfeitar o jardim. As belíssimas bromélias com suas enormes flores vermelhas brotando do verde carregado das árvores. Tantas outras flores, até as pequeninas, das mais variadas cores se fazem presentes, em humilde rastejar.

Os pássaros, os insetos, as aranhas com suas belas teias a acolherem o sereno. Algum pequeno animal, uma rã, um sapo. De repente, um regato a murmurar entre as pedras. O ar se movimenta em leve brisa a animar a vida. Todas, notas de uma grande sinfonia.

Sinto-me parte do criado. Sinto-me totalmente envolvido. A respiração, o pulsar do coração, todo o ser entra no ritmo da floresta. A comunhão com a natureza se dá através de todos os sentidos. Os ouvidos percebem os sons. A vista contempla as cores, as formas desde o tronco da árvore até a pétala da pequenina flor. O olfato se encarrega de acolher os variados perfumes. Alguma fruta dá a oportunidade de degustar os produtos da terra. O tato me coloca em íntima comunhão física com todos os seres. Por ela a natureza é sentida.

Impressionante a sinfonia do silêncio, a harmonia de todos os elementos da floresta. Todas as criaturas se respeitam. Ninguém domina. Todas estão a serviço umas das outras. Cada uma tem seu lugar. Todas convivem na mais perfeita harmonia. Tudo é paz.

Inúmeras são as lições oferecidas pela floresta! Pensemos na humildade, na solidariedade entre grandes e pequenos, no respeito mútuo, na consideração, na unidade na diversidade, na total interdependência, no serviço.

Oh! Se a família, as comunidades eclesiais e religiosas e a sociedade aprendessem as lições da floresta!

A experiência da floresta nos pode levar à reconciliação conosco, com o próximo, com Deus e toda a natureza criada. A experiência da floresta nos traz uma paz profunda. Não basta olhá-la de longe. É preciso penetrar nela, deixar-se envolver e imbuir por ela, identificar-se com ela. Também através da natureza Deus fala ao coração do ser humano.

Obras do Senhor, bendizei ao Senhor!

Frei Alberto Beckhäuser, OFM

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/itf/artigos/2010/004.php

Como vai ser 2012?

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SAM_0791Quando olho o atual cenário da igreja evangélica brasileira – estou usando o termo “evangélica” de maneira ampla – confesso que me sinto incapaz de prever o que vem pela frente. Há muitas e diferentes forças em operação em nosso meio hoje, boa parte delas conflitantes e opostas. Olho para frente e não consigo perceber um padrão, uma indicação que seja, do futuro da igreja.

Há, em primeiro lugar, o crescimento das seitas neopentecostais. Embora estatísticas recentes tenham apontado para uma queda na membresia de seitas como a Universal do Reino do Deus, outras estão surgindo no lugar, como na lenda grega da Hidra de Lerna, monstro de sete cabeças que se regeneravam quando cortadas. A enorme quantidade de adeptos destes movimentos que pregam prosperidade, cura, libertação e solução imediata para os problemas pessoais acaba moldando a imagem pública dos evangélicos e a percepção que o restante do Brasil tem de nós.

Na África do Sul conheci uma seita que mistura pontos da fé cristã com pontos das religiões africanas, um sincretismo que acaba por tornar irreconhecível qualquer traço de cristianismo restante. Temo que a continuar o crescimento das seitas neopentecostais e seus desvios cada vez maiores do cristianismo histórico, poderemos ter uma nova religião sincrética no Brasil, uma seita que mistura traços de cristianismo com elementos de religiões afro-brasileiras, teologia da prosperidade e batalha espiritual em pouquíssimo tempo.

 Depois há o movimento “gospel”, que recentemente mostrou sua popularidade ao ter o festival “Promessas” veiculado pela emissora de maior audiência do país. Não me preocupa tanto o fato de que a Rede Globo exibiu o show, mas a mensagem que foi passada ali. A teologia gospel confunde “adoração” com pregação, exalta o louvor como o principal elemento do culto público, anuncia um evangelho que não chama pecadores e crentes ao arrependimento e mudança de vida, que promete vitórias mediante o louvor e a declaração de frases de efeito e que ignora boa parte do que a Bíblia ensina sobre humildade, modéstia, sobriedade e separação do mundo.

Para muitos jovens, os shows gospel viraram a única forma de culto que conhecem, com pouca Bíblia e quase nenhum discipulado. O impacto negativo da superficialidade deste movimento se fará sentir nesta próxima geração, especialmente na incapacidade de impedir a entrada de falsos ensinamentos e doutrinas erradas.

 Em Brasília, temos os deputados e senadores evangélicos que, gostemos ou não, têm conseguido retardar e mesmo impedir as tentativas de grupos ativistas LGTB de impor leis como o famigerado PL 122. O lado preocupante é que eles “representam” os evangélicos nestes assuntos e acabam, por associação, nos representando de maneira generalizada diante do grande público e da grande mídia.

Por um lado, lamento que foram líderes de seitas neopentecostais e pastores de teologia e práticas duvidosas, em sua maioria, que conseguiram alcançar uma posição de destaque a ponto de serem ouvidos em Brasília. Esta é uma posição que deveria ter sido ocupada pelos reformados, como aconteceu em outros países. Mas, falhamos. E a bem da justiça, não posso deixar de reconhecer que Deus usa quem Ele quer para refrear, ainda que por algum tempo, a rápida deterioração da nossa sociedade. O que isto representará no futuro, é incerto.

 Notemos ainda o rápido crescimento do calvinismo, não nas igrejas históricas, mas fora delas, no meio pentecostal. Não são poucos os pentecostais que têm descoberto a teologia reformada – particularmente as doutrinas da graça, os cinco slogans (“solas”) e os chamados cinco pontos do calvinismo. Boa parte destes tem tentado preservar algumas idéias e práticas características do pentecostalismo, como a contemporaneidade dos dons de línguas, profecia e milagres e um culto mais informal, além de uma escatologia dispensacionalista.

Outros têm entendido – corretamente – que a teologia reformada inevitavelmente cobra pedágio também nestas áreas e já passaram para a reforma completa. Mas o tipo de movimento, igrejas ou denominações resultantes desta surpreendente integração ainda não é previsível. O que existe de mais próximo é o movimento neocalvinista, mas este é por demais vinculado à cultura americana para ser reproduzido com sucesso aqui, sem adaptações. Estou curioso para ver o que vai dar este cruzamento de soteriologia calvinista com pneumatologia pentecostal.

 O impacto das mídias sociais também não pode ser ignorado. E há também o número crescente de desigrejados, que aumenta na mesma proporção da apropriação das mídias sociais pelos evangélicos. Com a possibilidade de se ouvir sermões, fazer estudos e cursos de teologia online, além de bate-papo e discipulado pela internet, aumenta o número de pessoas que se dizem evangélicas mas que não se congregam em uma igreja local. São cristãos virtuais que “freqüentam” igrejas virtuais e têm comunhão virtual com pessoas que nunca realmente chegam a conhecer. Admito o benefício da tecnologia em favor do Reino.

 Eu mesmo sou professor há quinze anos de um curso de teologia online e sei a benção que pode ser. Mas, não há substituto para a igreja local, para a comunhão real com os santos, para a celebração da Ceia e do batismo, para a oração conjunta, para a leitura em uníssono das Escrituras e para a recitação em conjunto da oração do Pai Nosso, dos Dez Mandamentos. Isto não dá para fazer pela internet. Uma igreja virtual composta de desigrejados não será forte o suficiente em tempos de perseguição.

Eu poderia ainda mencionar a influência do liberalismo teológico, que tem aberto picadas nas igrejas históricas e pentecostais e a falta de maior rapidez e eficiência das igrejas históricas em retomar o crescimento numérico, aproveitando o momento extremamente oportuno no país. Afinal, o cristianismo tem experimentado um crescimento fenomenal no chamado Sul Global, do qual o Brasil faz parte.

 Algumas coisas me ocorrem diante deste quadro, quando tento organizar minha cabeça e entender o que se passa.

1 – Historicamente, as igrejas cristãs em todos os lugares aqui neste mundo atravessaram períodos de grande confusão, aridez e decadência espiritual. Depois, ergueram-se e experimentaram períodos de grande efervescência e eficácia espiritual, chegando a mudar países. Pode ser que estejamos a caminho do fundo do poço, mas não perderemos a esperança. A promessa de Jesus quanto à Sua Igreja (Mateus 16:18) e a história dos avivamentos espirituais nos dão confiança.

2 – Apesar de toda a mistura de erro e verdade que testemunhamos na sincretização cada vez maior das igrejas, é inegável que Deus tem agido salvadoramente e não são poucos os que têm sido chamados das trevas para a luz, regenerados e justificados mediante a fé em Cristo Jesus, apesar das ênfases erradas, das distorções doutrinárias e da negligência das grandes doutrinas da graça. Ainda assim, parece que o Espírito Santo se compraz em usar o mínimo de verdade que encontra, mesmo em igrejas com pouca luz, na salvação dos eleitos. Não digo isto para justificar o erro. É apenas uma constatação da misericórdia de Deus e da nossa corrupção. Se a salvação fosse pela precisão doutrinária em todos os pontos da teologia cristã, nenhum de nós seria salvo.

3 –  Deus sempre surpreende o Seu povo. É totalmente impossível antecipar as guinadas na história da Igreja. Muito menos, fazer com que aconteçam. Há fatores em operação que estão muito acima dos poderes humanos. Resta-nos ser fiéis à Palavra de Deus, pregar o Evangelho completo – expositivamente, de preferência – viver uma vida reta e santa, usar de todos os recursos lícitos para propagar o Reino e plantar igrejas bíblicas e orar para que nosso Deus em 2012 seja misericordioso com os seus eleitos, com a Sua igreja, com aqueles que Ele predestinou antes da fundação do mundo e soberanamente chamou pela Sua graça, pela pregação do Evangelho.

Reverendo Augustus Nicodemus Lopes

Fonte: http://www.ipb.org.br/portal/artigos-e-estudos

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