16º DOMINGO DO TEMPO COMUM – 21/7/2019

Autor Claudio Geraldo | Data 3 de julho de 2019



1a  LEITURA – Gn 18,1-10a

 

É importante acolher bem as pessoas

A primeira coisa que chama a atenção no texto é quem aparece a Abraão. É o próprio Deus (18,1), três homens (18,2) ou anjos (19,1)? Com quem Abraão está falando, com três pessoas (vv. 4.5.9), com uma só (vv. 3.10) ou com o próprio Deus (v. 13)? Observe o texto atentamente e veja como ele é ambíguo. Ora é uma pessoa, ou são três homens, ora são anjos, ora é o próprio Deus. O que o autor quer ensinar através desta ambiguidade textual? Ele quer ensinar que “quem acolhe pessoas está acolhendo a Deus que dá vida e que os anjos são mensageiros de Deus, ou expressão do próprio Deus. Abraão, símbolo da fé, sabia muito bem que acolher as pessoas é acolher o próprio Deus, aliás, faz parte da mística semita a boa hospitalidade. Veja a visita dos anjos a Ló em 19,1-8.

 

Vigilância e disponibilidade diante das imprevisíveis visitas de Deus (vv. 2-8)

Abraão significa pai (= ab) do útero (= raham), ou seja, pai de uma prosperidade numerosa, pai da fertilidade, entretanto esta promessa de Deus de uma grande prosperidade parece ter ficado no esquecimento. Pois Abraão e Sara já ficaram velhos. Será que Abraão perdeu a esperança, desanimou, desistiu? O texto de hoje mostra que não. O texto sublinha a vigilância e a disponibilidade de Abraão. Ao invés de estar deitado, acomodado, cochilando à sombra, Abraão está sentado atento aos acontecimentos. Não é hora de visitas, mas Deus não marca hora, nem aparece vestido de glória. Abraão é profundamente cordial e acolhedor. Ele consegue logo perceber que aquela visita era de Deus. Chama os três de Senhor e se coloca como seu servo. Apesar do intenso calor do sol ele corre para um lado, corre para o outro, movimenta a esposa e o criado e oferece o que há de melhor para os ilustres visitantes.

 

A promessa de Deus está para acontecer (vv. 9-10)

Aqueles visitantes eram mesmo diferentes. Perguntam pela esposa o que não era costume entre os beduínos. Sabe o nome da esposa de Abraão, sem Abraão ter falado. E além disso conhece sua condição de estéril. Mas nada para Deus é impossível. Deus promete que dentro de um ano ele retornará, e Sara já terá um filho. Quem acolhe o outro acolhe o próprio Deus, quem acolhe Deus, acolhe a vida.

 

 

2a  LEITURA – Cl 1,24-28

 

Vamos destacar três temas no texto de hoje.

 

1) Precisamos edificar a Igreja que é Corpo de Cristo

Em 1,18 vimos uma afirmação forte: Ele (Jesus Cristo) é também a cabeça do corpo, que é a Igreja. Aqui em 1,24 volta o mesmo tema. A Igreja é o Corpo de Cristo. Assim é preciso que cada cristão (não apenas os agentes de pastoral) assuma um compromisso particular com a comunidade-Igreja. Cristo fez tudo por nós e por isso tem o direito de pedir tudo de nós para a edificação do seu Corpo. Nossa alegria é alegria para Cristo, nossa tristeza é tristeza para Cristo. Nossas virtudes e trabalhos edificam o Corpo de Cristo, nossos vícios, pecados e omissões, destroem o corpo de Cristo. O autor, que fala em nome de Paulo, se sente alegre por sofrer pela comunidade. Precisaríamos chegar a essa consciência.

 

2) O apóstolo se torna ministro da Igreja

Isso aconteceu quando Deus confiou a Paulo a missão de anunciar o mistério da presença de Cristo na comunidade. Em 1,23 ele fala expressamente que se tornou ministro do Evangelho. Paulo, é ministro da Igreja, do Evangelho, de Cristo, da Palavra. Estamos percebendo que há uma identificação destas realidades. O que deve fazer o ministro da Palavra? À imitação de Paulo, ele deve alegrar-se no sofrimento em favor da Igreja, anunciar o Cristo, aconselhar, ensinar, trabalhar pela perfeição do irmão, acreditar profundamente na força de Cristo que age nele, não desanimar diante das dificuldades, mas investir na edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja.

 

3) Qual é o mistério antes escondido?

Este mistério cheio da riqueza gloriosa de Cristo é exatamente a novidade da salvação, que, agora, não é  mais restrita aos judeus, mas a todos os pagãos; por isso ele representa muito para os pagãos. Este mistério da salvação que é Jesus Cristo já está presente no meio da comunidade, abrindo fronteiras, através do exemplo de cada cristão e do anúncio da Palavra. O núcleo do mistério é este: Cristo é salvação e vida para todos.

 

EVANGELHO – Lc 10,38-42

 

Rezar ou trabalhar – o que é mais importante?

A partir de Jo11,1 ficamos sabendo que estamos em Betânia na casa de Lázaro. Lázaro está ausente, talvez Lucas queira salientar a importância da mulher na vida ativa (trabalho de Marta) e litúrgica (Maria atenta à palavra de Jesus) da Igreja. No tempo de Jesus as mulheres eram marginalizadas até pela religião, não podiam estudar a Lei, nem participar oficialmente do culto.

O texto nos mostra que Marta acolhe Jesus, mas não tem tempo de acolher o dom que ele traz, seu projeto de vida. Ela parece com Abraão que acolheu o Deus da vida (Gn 18,1-10a), mas o seu ativismo, suas preocupações exageradas a impediram de acolher e aprofundar o projeto de vida que Jesus trazia com sua vida. Abraão parece ter antecipado Marta e Maria, soube ouvir, servir, contemplar e agir e por isso recebeu o dom da vida na pessoa de seu filho. Maria, certamente era a companheira de Marta nos afazeres domésticos, senão ela não perderia tempo de insistir com Jesus para liberar Maria. Curioso! Quem ficaria com o hóspede? Não seria um desrespeito deixá-lo sozinho? Maria não chamou Marta, pois quem faria o trabalho? Egoísmo de Marta? Preguiça de Maria? Jesus valoriza a escolha de Maria e achou exagerada a escolha de Marta. Isto significa que precisamos rezar mais e trabalhar menos? Viver de contemplação e não de serviço? Poderíamos viver sem o trabalho? Poderíamos viver só de reza? Não é o próprio Jesus que insiste tanto em dar o exemplo de servir? “Eu não vim para ser servido, mas para servir”. A parábola anterior ao nosso texto não frisa a prática da misericórdia? Veja 10,28 : “faça isso e viverá”, v. 37: “vá e faça a mesma coisa”.

 

O ensinamento do texto

Creio que o contexto nos quer ensinar a importância da contemplação e da ação, do rezar e do trabalhar. Lucas distingue entre Marta e Maria o que deve estar unido e dosado em cada cristão, como esteve na atitude de Abraão. Devemos ouvir a Palavra e a colocar em prática. Não é isto que lemos logo à frente em Lc 11, 28? “Mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. As duas atitudes devem andar juntas em cada cristão. Aqueles que se dedicam demais ao trabalho, pastoral ou não, estes devem parar no dia do Senhor ( Domingo) para, sentados aos pés de Jesus, louvar e agradecer, avaliar e se abastecer de novo. Aqueles que rezam muito não devem tardar em colocar em prática o projeto de Jesus. Jesus não parou para ser servido, ele veio até nós para entregar o dom da vida. De fato, ele está a caminho de Jerusalém onde seu projeto de vida para todos ia realizar-se através da cruz. Marta e Maria estão vivas dentro de você?

 

 

Dom Emanuel Messias de Oliveira

Bispo diocesano de Caratinga

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