Reflexão sobre a espiritualidade quaresmal

Autor Claudio Geraldo | Data 1 de março de 2019



Reflexão sobre a espiritualidade quaresmal: As tentações de Jesus como reveladoras da verdadeira relação Deus-homem

 

 

Pe. Elias Fernandes Pinto, Mestrando na FAJE e bolsista FAPEMIG.

 

No primeiro Domingo da quaresma, a liturgia nos propõe refletir sobre as tentações de Jesus, esse ano, consoante o Evangelho de Lucas (4,1-13). Os Evangelistas não colocam as tentações espalhadas durante a vida de Jesus, mas as coloca no início de sua vida pública. Isso por motivações teológicas: em primeiro lugar, vinculá-las com o Batismo de Jesus; e em segundo lugar, fazer da unidade Batismo-Tentações uma chave para ser lida toda a vida de Jesus.

 

O Batismo de Jesus foi interpretado pelos evangelistas, por meio da teofania, manifestação de Deus, como a proclamação da Filiação divina de Jesus. O Espírito que acaba de aparecer no Batismo é o mesmo que impulsiona Jesus para o deserto (Mt 4,1…) As três primeiras tentações recolhem o tema da filiação divina. A voz na teofania do Batismo é uma citação de Is 42,1ss (primeiro poema do Servo do Senhor), o que proclama desde já o caráter de servo. Apresenta-se, então, a Filiação no sentido de dignidade e no sentido de serviço.

 

A resposta de Jesus às tentações são sempre citações do Antigo testamento (a primeira resposta cita Dt 8,3, que por sua vez, alude a Ex 16, 1ss (O Maná); a resposta a segunda tentação cita Dt 6,16, que por sua vez alude a Ex, 17,1-7; a terceira resposta cita Dt 6,13 que pode aludir a Ex 32 (o bezerro de ouro) como a Ex 23,24 e 34, 13-17. O importante é que esse paralelismo nos permite afirmar que entre a filiação de Jesus e sua tentação se dá uma ralação proporcional que existiu com a eleição de Israel e sua tentação. Foi a eleição que levou Israel para o deserto e no deserto surgiram as dúvidas sobre Deus e a tentação. Este esquema segue os evangelistas para falar da vida de Jesus, porém, substituindo a caída de Israel pela vitória de Jesus. Deste modo se vê em Jesus o verdadeiro povo de Deus, a ponto de realizar o plano salvador de Deus e o cumprimento da promessa de um povo com coração novo e a Lei inscrita no coração.

 

Isso significa que as tentações estão relacionadas com a eleição de Jesus e sua filiação. Elas querem nos ensinar algo sobre a intimidade com Deus e não sobre as nossas tentações individuais. As tentações destroem as falsas imagens de Deus, as quais se fundamentam numa visão turva do ser humano. Portanto, as tentações querem dizer algo sobre a verdadeira relação Deus-homem tal como revela Jesus. As três tentações são caracterizadas como: tentação da religião, do prestigio e do poder. As tentações começam com: “Se és Filho de Deus…” (Lc 4,3); não colocando em dúvida a Filiação, mas como um consecutivo, pode-se traduzir por: “posto que és Filho de Deus…”

 

A tentação da religião está relacionada com o significado da Filiação divina, usando desta para mudar a condição humana em benefício próprio. A resposta de Jesus: “Não só de pão vive o homem” (Lc 4,4) nos diz: A filiação divina não elimina nada da condição humana. Deus está presente na falta e quando se tem pão. Jesus não usa Deus nem sua relação especial com ele para proveito próprio. Ele vive sua relação com Deus no suportar até o fim a mesma condição humana. O contrário da tendência religiosa de esperar de Deus um milagre mudando a situação de “deserto” da vida humana.

 

A tentação da prova está relacionada com a missão de Jesus. “Se és Filho de Deus, atira-te daqui a baixo! Porque a escritura diz: Deus ordenará os seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado. E mais ainda: eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra” (Lc 4, 10). Uma prova da presença de Deus eliminaria toda obscuridade da missão de Jesus, eliminaria o grito de Mc 15,34, e sua missão seria distinta de toda missão humana por não haver espaço para a fé. Jesus, ao viver sua missão pautando-a na fé, possibilitou a comunidade pascal levar a missão recebida com os riscos próprios de toda missão entre os homens.

 

A tentação do poder está relacionada a divindade de Jesus. O poder, é para o homem, a característica mais clara da divindade. É o lugar do endeusamento do homem, da idolatria. Para Jesus a tentação do poder é ainda mais sutil: aplicar seu poder divino a sua condição nesse mundo, ou seja, um meio para realizar sua missão e sua pretensão de utopia humana. A resposta de Jesus é: só Deus é absoluto. Aqui está claro o tema da Kénosis em Jesus. Antecipar seu poder seria usar a força e não o amor. Isso significa que o homem não é para Jesus um ser salvável a força. É a afirmação da máxima dignidade humana: nenhum bem imposto de fora ou doado messianicamente é um bem para o homem, mas só é digno do homem aquele bem que é seu próprio fruto. O homem é salvo em sua mais profunda liberdade.

 

Assim, podemos tirar duas conclusões para a relação Deus-homem: a primeira que “A relação Deus-homem só pode ser colocada na área onde o homem é chamado a assumir sua condição de criatura, a suportar ou pesar suas próprias decisões e a eliminar toda a escravidão da história. [...] e o homem religioso ou sábio (o judeu ou gentio de Paulo), que não busca tanto a Deus quanto a vantagem, a segurança ou o modo de fazer um bom negócio com sua liberdade, encontrará os deuses (ídolos), mas não o Deus de Jesus. A conclusão é que “O messianismo de Jesus não será para o homem nem fácil beneficência nem segurança tranquilizadora, nem imposição pela força”. (FAUS, 2010. P. 222). Portanto, a relação com Deus é de suprema liberdade. Deus ante o homem não faz uso da coação que implica vantagens pessoais nem cria propagandas espetacular nem o uso da força. Deus não elimina a condição humana, nem manipula o homem nem se deixa manipular por ele.

 

 

Fonte: GONZALEZ FAUS, Jose Ignacio. La humanidad nueva: ensayo de cristologia. 10 . ed. Guevara: Sal e Terae, 2016.

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