O silêncio de Maria e de José

Autor Claudio Geraldo | Data 3 de maio de 2018



O Silêncio sobre Maria e sobre José nas Sagradas Escrituras é impressionante. Observa-se que Lucas prioriza Maria, enquanto Mateus prioriza José. Ambos os evangelistas falam sobre José e Maria nos dois primeiros capítulos dos seus evangelhos, chamados evangelho da Infância de Jesus. Há algumas alusões sobre Maria também fora dos Evangelhos como nos Atos dos Apóstolos (1,14) e no Apocalipse de São João (12 – uma mulher grávida, vestida de Sol). No Primeiro Testamento vemos algumas referências proféticas à Maria, enquanto sobre José não temos nada. Mas não podemos nos esquecer de que os primeiros discípulos estão preocupados com o querigma primitivo que é o anúncio da morte e ressurreição de Jesus. O evangelho da paixão, morte e ressurreição de Jesus, embora esteja no fim dos evangelhos, foi anunciado, proclamado em primeiro lugar, na Igreja Primitiva. Foi o objeto da pregação dos primeiros discípulos e continua sendo o núcleo da fé cristã de todos os tempos. O evangelho de Marcos, (o primeiro a ser escrito na ordem do tempo), não fala da Infância de Jesus.  Em Marcos temos também uma pequena alusão à” mãe de Jesus” (Mc 3,31). E São João fala da origem divina de Jesus, sem referência à sua origem humana. Além do texto das Bodas de Caná, lemos no final do evangelho de João, Jesus entregando “sua mãe” aos cuidados do Discípulo Amado (Jo 19,25-27).  Lembro ao leitor que não estou preocupado com um texto científico. Aqui é a “Palavra do Pastor”.  Estou escrevendo apenas o que me vem na memória, sem muita preocupação exegética.

 

Com relação às palavras de Maria e de José é interessante que José não fala uma palavra em nenhum dos evangelhos. José apenas ouve o anjo de Deus e obedece. Seu silêncio é absoluto, impressionante! Ele não fala, apenas age. Ele nos lembra o comportamento de Abraão no sacrifício de Isaac: Abraão apenas obedece sem nenhum questionamento.  Abraão caminha em profundo e doloroso silêncio (Gn 22).  José é o homem do silêncio, da obediência e da ação. Como Maria, ele estava mergulhado no mar profundo do mistério da Encarnação do Filho de Deus. Ali não se fala, apenas se escuta surpreso, absorto e maravilhado!

 

Maria, a virgem do silêncio, fala umas seis vezes nos evangelhos: Primeiro no momento da anunciação do anjo sobre o nascimento de Jesus (Lc 1, 26-38). No v.34 Maria pergunta ao anjo: “Como vai acontecer isto, se não vivo com nenhum homem”. No final da perícope, no v.38 Maria se entrega totalmente à vontade de Deus, dizendo: Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. Depois na casa da sua parenta Isabel, ouvimos Maria cantar as maravilhas de Deus com o chamado canto do “Magnificat” (Lc 1, 46-55).  Em seguida, presenciamos um silêncio absoluto durante a viagem a Belém, o nascimento de Jesus, a visita dos pastores e  dos  Magos  e a ida ao templo de Jerusalém, no oitavo dia para a purificação. Com a visita dos pastores, o evangelista diz sobre Maria: “Maria, porém, conservava todos estes fatos, e meditava sobre eles em seu coração”. Meditação profunda, contemplação, mergulho no inefável. No templo, diante das palavras do profeta Simeão e os louvores da profetiza Ana, temos de novo um profundo silêncio orante. Depois, 12 anos de silêncio. Aqui, queremos dizer que São Lucas não escreve nada sobre a família de Nazaré.  Mas, quando Jesus completou  12 , a família de Nazaré foi ao Templo para a festa da Páscoa  (Lc 2,41-52). Quando voltavam, perceberam que Jesus não estava com eles. Voltaram preocupados à sua procura e  o encontraram no Templo conversando com o doutores. Aqui ouvimos mais uma palavra de Maria: “Meu filho, por que você fez isto conosco?  Olhe que seu pai e eu estávamos angustiados, à sua procura” (v.48). Jesus respondeu: “Por que me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa do meu Pai?” O evangelista escreve; “Mas eles não compreenderam o que o menino acabava de lhes dizer”.  O mistério não se compreende, é acolhido no silêncio do coração.  O v. 51 diz: “Jesus desceu, então, com seus pais para Nazaré e permaneceu obediente a eles”.  Em seguida lemos: “E sua mãe conservava no coração todas estas coisas”. Depois disso os evangelistas silenciam sobre a família de Nazaré até Jesus completar 30 anos.  Finalmente, nas Bodas de Caná, temos a palavra de Maria em favor dos nubentes. E ali Maria pronuncia duas palavras de capital importância: “Eles não tem mais vinho”, e, em seguida, ela diz para os serventes: “Façam o que ele mandar” , confiança total e absoluta na Palavra Encarnada, que é seu filho Jesus.

 

O coração de Maria e José é o relicário de palavras e silêncios do profundo e abissal mistério que os envolvia sobre tudo que acontecia a respeito do Verbo de Deus no meio de nós.

 

Dom Emanuel Messias de Oliveira

Bispo diocesano de Caratinga

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