O conteúdo da fé na ressurreição de Jesus

Autor Claudio Geraldo | Data 25 de abril de 2019



Varias palavras foram usadas para expressar o conteúdo da experiência pascal. O que hoje chamamos de ressurreição já foi chamado de consumação, teleiosis de Jesus, sentar à direita do Pai, exaltação, triunfo de Jesus e outros. Tudo isso mostra o caráter análogo da palavra ressureição. Essa não significa imortalidade da alma, segundo a cultura grega, nem um milagre ou um final feliz da vida de Jesus. O NT fala da ressurreição não como um fato óbvio, mas como um acontecimento inaudito e definitivo. A ressurreição é nova criação, nova vida, feita por Deus a partir do princípio da morte e superando a morte, ou na fórmula paulina: vestir-se de incorruptibilidade o corruptível (1Cor 15,53).

 

O testemunho bíblico da pregação dos apóstolos aponta para o fato de que o ressuscitado é o mesmo Jesus que viveu na Galileia e em Jerusalém. Mas seu interesse principal é no Jesus ressuscitado. O Novo Testamento fala sempre de morte e ressurreição de Jesus unitariamente. Morte e ressurreição não são movimentos contrários, mas dois polos que definem um mesmo movimento. A ressureição é a confirmação da vida de Jesus porque é o significado de sua morte. É evidente que com isso se muda o sentido de ambas.

 

A ressurreição de Jesus não possui paralelo com nenhum outro evento do mundo e da história. Entende-se por ressurreição, primeiramente, um passo da morte para a vida. Mas trata-se de uma vida original. Os Evangelhos não narram a ressurreição por ela não ser um fato histórico, mesmo afetando um indivíduo de nossa história. Esta não pode ser conhecida mais que pela manifestação do ressuscitado.

 

González Faus, teólogo espanhol, faz uma importante definição de ressurreição: “A palavra ressureição expressa o que a teologia clássica chama de elevação do homem ao sobrenatural. É qualitativamente distinta de todos os milagres que há e pode haver na história, inclusive o da volta de um morto a esta vida. [...] [A ressurreição] é a entrada na dimensão de Deus, é um fato que só pode ser efetuado por Deus mesmo. É um fato exclusivamente divino como a criação.”

 

O ressuscitado entra em uma nova dimensão a qual não é deste tempo e espaço. Para falar dessa nova dimensão, Paulo usa a categoria corpo espiritual. No corpo está a ideia da pessoa como possibilidade de comunicação e no espírito está a ideia de Deus enquanto é comunicação. A existência do ressuscitado é uma existência em que o pessoal e o comunitário, o subjetivo e o natural, coincidem: por isso é existência divina.

 

A ressureição de Jesus inclui também a nossa ressureição. Por isso, os apóstolos pensaram na proximidade do fim do mundo. Neste princípio, está o caráter missionário das aparições. É um acontecimento tão maravilhoso que precisa ser comunicado. Isso significa que a ressurreição é uma novidade total e não há outra possível. Os teólogos costumam dizer que a escatologia irrompe na história e a marca. Marcar a história é o de irrenunciável na expressão clássica de ressureição corporal de Jesus. O corpo é um centro de relações com o universo. A ressureição corporal implica que todo esse conjunto de relações fica transformado por seu relacionamento com a vida de Deus. “A ressureição não afeta só a Jesus. Ele já ressuscitou, mas Cristo ressuscitado é ainda futuro para si mesmo. A ressureição marca a história no sentido de que a coloca para sempre sob esta norma que é sua norma definitiva.”

 

A ressureição de Jesus é realmente a realização do reino pregado por Jesus como iminente. É a realização daquela vida histórica de Jesus e é ininteligível sem ela. É entendida como o fim da história, o Reino antecipado e semeado nela, e como realização irrevogável da promessa. Irrevogável porque é o “já” da escatologia, a realização da promessa; e realização porque continua sendo promessa, o “ainda não” da escatologia. Nos Evangelhos percebemos a passagem do Jesus pregador ao Jesus pregado. Isso significa que a causa de Jesus passou a ser irrevogavelmente o próprio Jesus, ressuscitado. Enquanto confirmação da pretensão de Jesus, a ressureição é também a confirmação da sua pretensão de quem é o ser humano.

 

 

Pe. Elias Fernandes Pinto

Mestrando do Programa de Pós-graduação da FAJE, bolsista FAPEMIG.

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1. Texto adaptado do artigo publicado em: FERNANDES PINTO, Elias. A ressurreição de Jesus na atualidade: Uma reflexão a partir de J. I. González Faus. Pensar-Revista Eletrônica da FAJE v.9 n.2 (2018): p. 239-249.

 

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