Virtude

Autor Claudio Geraldo | Data 24 de setembro de 2017



“Na época em que a vida na terra era plena, ninguém dava nenhuma atenção aos homens dignos, nem selecionavam os homens capazes. Os soberanos eram apenas os galhos mais altos das árvores, e o povo era como cervos na floresta. Eram honestos e corretos, sem imaginar que ‘estavam cumprindo com o seu dever’. Amavam-se mutuamente, e não sabiam que isto se chamava ‘amor ao próximo’. Não enganavam a ninguém, e, no entanto, não sabiam ser ‘homens de confiança’. Podia-se contar com eles, e ignoravam que isto fosse ‘a boa fé’. Viviam juntos livremente, dando e recebendo, e não sabiam que eram homens de bom coração. Por este motivo, seus feitos não foram narrados. Não se constituíam em historiografia” (Chunag-tse).

 

O texto citado é um poema proveniente da cultura asiática antiga. Ele pode ilustrar o quão distante nos encontramos do ideal humano de virtude.

 

Opiniões marcadas por estranhas ideologias produzem um esteticismo sem abertura para um compromisso ético. Tal situação se expressa em atitudes marcadas por empáfia do saber e do poder, vaidade exacerbada, rigorismo disciplinar, moralismo radical que camufla um orgulho desmedido, demonstrações de um pseudo-saber que na verdade demonstram incapacidade de diálogo, criatividade e disposição para ir ao encontro do outro. Nesse contexto não há lugar para a generosidade, a gratuidade, a disposição para construir uma sociedade na qual a economia esteja verdadeiramente a serviço da vida, que a promoção da paz e da justiça seja tarefa comum e a defesa da Mãe Terra, compromisso de todos.

 

O poema citado aponta para uma dimensão do humano que podemos denominar grande, profunda, livre, autêntica. Os antigos gregos chamavam esse modo de ser originariamente grande, profundo e livre de “virtude”, ou seja, “coragem de ser”.

 

Há uma questão a ser discutida: como promover o surgir, crescer e perfazer-se num modo de ser, marcado por virtude, sem recorrer à propaganda ou ao marketing tão presente em algumas expressões sociais, e sem cair ao mesmo tempo em um criticismo mesquinho e liberalista?

 

No ocidente, virtude se refere à essência do ser humano, ao seu modo próprio e específico enquanto vigor e vitalidade do tornar-se capaz da liberdade, e que se consuma como exercício da inteligência e da vontade. Vigor da inteligência e da vontade é a mesma coisa, são dois momentos de uma única vigência que no cristianismo recebeu o nome de “amar”.

 

Ninguém nasce bom; ninguém nasce simples, puro, sábio. É algo que se conquista ao longo da vida. Ser bom, justo, sábio requer muito trabalho; trabalho intenso, disciplinado e dedicado.

 

Virtude tem relação com equilíbrio, sensibilidade, delicadeza, que têm a ver com inteligência. Inteligência que não é sinônimo de informações acumuladas. Inteligência compreendida com perspicácia, sensibilidade, serenidade, cordialidade, disposição e empenho em cooperar responsavelmente na tarefa de tornar sempre mais habitável a “terra dos homens”. Alguém que assim se empenha no desenvolvimento da virtude é bom, útil, firme, bem disposto para a tarefa de fazer da “terra dos homens” uma terra verdadeiramente sem males.

 

Todos nós desejamos colaborar na construção de uma sociedade melhor para as futuras gerações. Para tanto, urge compreender sempre mais e melhor esse modo de ser próprio do ser humano, isto é, ser virtuoso. Sem o cultivo decidido de virtudes autenticamente humanas, as desigualdades sociais crescem, os sectarismos se desenvolvem, os conflitos se multiplicam, o ser humano se diminui na sua identidade e a tragédia se manifesta no horizonte.

 

 

Dom Jaime Spengler
Arcebispo metropolitano de Porto Alegre

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