Outra vez ideologia de gênero

Autor Claudio Geraldo | Data 3 de maio de 2017



Sei que há opiniões divergentes. A questão “gênero” é uma das polêmicas mais debatidas na atualidade. O que deverá prevalecer? As correntes do modismo, os interesses particularizados de minorias, ou o bom senso da razão? O que se está propondo (ou impondo) é uma revolução dos conceitos e dos costumes. As revoluções podem ser boas ou más, mudar para melhor ou para pior. Elas são geralmente resultado de uma ideia que, de alguma forma, pegou. Porém, também nem sempre o que pegou é bom. A ideias nazistas e fascistas pegaram, à época, mas não eram boas e geraram guerra mundial. As consequências vão demonstrar onde está a verdade. Mas, pela experiência da história, podemos evitar desastres desnecessários.

O critério para decisões nas horas acaloradas não pode ser outro senão o respeito à ordem natural das coisas, à dignidade das pessoas e à legitimidade do método. No caso da agenda de gênero, parece-me haver vários enganos que poderão causar danos irreparáveis. Em primeiro lugar, afirmar que ninguém nasce homem ou mulher e que ser uma coisa ou outra reduz-se a papéis atribuídos pela sociedade, é evidente e clamoroso equívoco, uma vez que desconsidera, como se não tivesse nenhuma relevância, o dado biológico, que é constitutivo do ser humano e o faz concretizar a essência humana como homem ou como mulher.

Há muitas coisas que são resultado da construção social, o que equivale a dizer que há muitas injustiças sociais que devem ser superadas pela reconstrução de papéis sociais atribuídos pela sociedade. Mas isso, de modo algum, autoriza-nos a desconsiderar o dado natural e sua relevância moral. Por natureza, os seres vivos são criados machos e fêmeas, e isso não é apenas um acaso, mas a ordem natural que possibilita a procriação e a harmonia entre os seres vivos. A natureza já nos dá certas determinações, e isto não pode ser simplesmente desprezado ou encarado como uma agressão da mesma. Há coisas que devem ser recebidas como um dom e não como imposição. Seria uma deformação psicológica ver em tudo opressão. Você, se nasceu no Brasil, nasceu brasileiro, se nasceu no Japão, será sempre japonês. Ainda que você, por opção, se naturalize em outro país, a sua origem nunca poderá ser negada. Há, portanto um dado original que lhe determina a existência.

No campo da sexualidade, se ao caminhar da vida algo de diferente apareceu na dimensão psicológica ou em opções pessoais, trata-se de caso especial e deve ser visto, respeitosamente, como tal. As pessoas não têm culpa de terem esta ou aquela tendência. Mas é preciso tratar as coisas com objetividade. Se você, por exemplo, se sente japonês num corpo brasileiro, todos o respeitarão, mas seria um contrassenso exigir que a todos nasçam sem nacionalidade ou naturalidade definida, e tentar criar legislação que proibisse todas as pessoas de se reconhecerem como tais, dando-lhes o pseudodireito, antinatural, de esperar ter a idade da razão para saber se quer ser brasileiro, japonês, ou ter qualquer outra naturalidade.

Se, em linha de princípio, se deve o respeito às opções, é necessário observar que a liberdade de optar tem limites e consequências. Mesmo as opções por algo que julgo bom devem ser averiguadas. É preciso saber se vão causar danos a alguém, ao grupo humano de que fazemos parte e até à humanidade inteira. Por exemplo, a opção pelo desmatamento pode ser julgada por alguém como algo bom, pois poderá gerar lucros e para estes autores da desflorestização o lucro é tentador. Mas, sabemos que tal ato causa um grande prejuízo ao meio ambiente e gera situações de morte para pessoas humanas e outros seres vivos.

Os métodos para fazer prevalecer ideias devem ser legítimos e respeitosos. Não me parece que isto esteja acontecendo com relação à ideologia de gênero. A instrumentalização da mídia com casuísmos dramáticos, com exemplos particularizados, a forma de impor tal agenda nos planos de municipais de educação, de juventude, da mulher e outros, além do uso de material didático, verdadeira literatura pornográfica já distribuída nos últimos anos sem nenhum consenso da sociedade, não tem nada de democrático.

O direito das famílias de educar seus filhos conforme suas consciências e suas crenças é totalmente desprezado, não lhe reconhecendo nenhum direito de falar, de argumentar ou de optar por algo que lhe seja valor inalienável. Em geral, quando as vozes que defendem a família se levantam, são pejorativamente criticadas com termos como conservadorismo, homofobia, atitude contra os direitos das mulheres e outros.

Aos cristãos, sejam católicos ou evangélicos, constituidores da grande maioria do povo brasileiro, eu ofereceria a Palavra do Senhor que nos chamam a lutar com destemor: “No mundo tereis provações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Já enfrentamos coisas piores na história, mas sempre venceu o bom senso e a ordem estabelecida por Deus. No espírito da Quaresma que prepara a Páscoa, lutemos com as aramas da paz e da justiça, do respeito, da coragem e do amor, certos de que a vitória será da vida, pois Cristo venceu o pecado e a morte, ressuscitou e está vivo para sempre.

 

 

Dom Gil Antônio Moreira – Arcebispo de Juiz de Fora (MG)

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