Há mais felicidade dar do que receber

Autor Redacao | Data 16 de dezembro de 2019



O Documento final da Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia contempla alguns sonhos correspondentes ao clima de alegria que se espalha entre nós no encerramento do ano: “A escuta do grito da terra e do grito dos pobres e dos povos da Amazônia com os quais caminhamos nos chama a uma verdadeira conversão integral, com uma vida simples e sóbria, toda alimentada por uma espiritualidade mística no estilo de São Francisco de Assis, exemplo de conversão integral vivida com alegria e louvor cristão… Queremos ser uma Igreja amazônica, samaritana, encarnada no modo como o Filho de Deus se encarnou: “assumiu as nossas dores e carregou as nossas enfermidades” (Mt 8, 17b). Aquele que se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza (Cf. 2 Cor 8, 9), por meio do seu Espírito, exorta os discípulos missionários de hoje a saírem ao encontro de todos, especialmente dos povos originários, dos pobres, dos excluídos da sociedade e dos outros. Desejamos também uma Igreja madalena, que se sinta amada e reconciliada, que anuncie com alegria e convicção Cristo crucificado e ressuscitado. Uma Igreja mariana que gera filhos para a fé e os educa com afeto e paciência, aprendendo também com as riquezas dos povos. (Documento final, números 17 e 22; Cf. Laudato si 12).

 

São propósitos que desejamos compartilhar e com eles nos comprometermos, para dar nossa contribuição à construção de um mundo renovado, de acordo com o plano de Deus para toda humanidade. Trata-se do caminho da perfeita alegria, buscado com intensidade por São Francisco de Assis, aquele que por primeiro quis representar a cena da Natividade. Tudo isso combina conosco, sabendo que Deus nos concedeu viver no meio de uma natureza exuberante de beleza, desafiando-nos a construir uma sociedade digna dos povos aqui plantados, aprendendo a ser Igreja “samaritana”, indo ao encontro de quem sofre, “madalena”, para amar, reconciliar e anunciar o Cristo vivo, e “mariana”, disposta a escutar e viver a Palavra, para experimentar e comunicar a alegria autêntica do Evangelho.

 

A proximidade do Natal nos faz tocar no amor infinito de Deus, que enviou seu Filho amado, com todo o mistério contemplado na Encarnação, para que dele recebamos a graça infinita do amor e dele aprendamos os caminhos da caridade, fonte de alegria e felicidade para todos. Há poucos dias, o Papa Francisco entregou à Igreja e ao mundo o presente de uma Carta Apostólica sobre o Presépio: “O sinal admirável do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De fato, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade daquele que se fez homem a fim de se encontrar com todo o homem, e a descobrir que nos ama tanto, que se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a ele” (Carta Apostólica Admirabile signum, 1). Alegra-nos ver os presépios montados por toda parte, na criatividade que caracteriza o nosso povo, além dos inúmeros autos de Natal, em que crianças, jovens e adultos se esmeram em recontar as histórias reportadas pelos Evangelhos.

 

Olhar para o Presépio nos remete também a uma palavra do Apóstolo São Paulo: “Entrego-vos a Deus e à sua palavra misericordiosa, que tem poder para edificar e dar a herança a todos os que foram santificados. Não cobicei prata, ouro ou vestes de ninguém. Vós bem sabeis que estas minhas mãos providenciaram o que era necessário para mim e para os que estavam comigo. Em tudo vos mostrei que, trabalhando desse modo, se deve ajudar aos fracos, recordando as palavras do Senhor Jesus, que disse: ‘Há mais felicidade em dar do que em receber’” (At 20, 32-35).

 

O final de ano nos oferece oportunidades preciosas. Uma delas é a alegria de dar e receber presentes, especialmente quando estes são carregados de simbolismo, e não exercício desmesurado de consumo quase doentio. Há grupos de “amigo secreto” que até decidem compartilhar com outras pessoas os presentes, oferecendo o que é possível aos mais pobres. Outra graça especial é o encontro das famílias, quando os laços afetivos são aprofundados. Melhor ainda quando cada família procura primeiro a Belém da Eucaristia, na celebração eucarística, já que ali está a plenitude da Casa do Pão no dia a dia da Igreja!

 

Por falar em “Casa do Pão”, temos uma experiência privilegiada, na Arquidiocese de Belém, quando as paróquias se ajudam mutuamente, através da Cáritas Arquidiocesana, de modo a repartir cestas básicas e outros donativos, cuidando de identificar, para posterior acompanhamento, pessoas e famílias. Nosso projeto “Belém, casa do pão” tem motivado proprietários de supermercados e outras casas comerciais, que se sentem felizes e seguros, ao contribuírem, através do serviço da Igreja, para o bem das pessoas mais necessitadas, de forma inteligente e construtiva.

 

E a Igreja Católica, no Brasil inteiro, suscita em todas as nossas Paróquias e Comunidades, a participação generosa na Campanha para a Evangelização, com a qual, pouco a pouco, cresce a consciência de que a atividade pastoral em todo o país deve ser assumida responsavelmente por todos nós.

 

Tudo isso converge para o terceiro Domingo da Advento, “Domingo da Alegria”, à qual nos convida a liturgia. A espera do Messias está para se concluir! A oração inicial da Missa recita assim: “Ó Deus de bondade, que vedes o vosso povo esperando fervoroso o Natal do Senhor, daí chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”. E daqui a poucos dias iniciaremos os dias da preparação direta para o Natal de Jesus, a primeira realização do Reino de Deus tão esperado! Preparemos o presépio das casas, das igrejas, e mais ainda o presépio dos corações.

 

 

Dom Alberto Taveira Corrêa
Arcebispo Metropolitano de Belém do Pará

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