Cruz Salvadora

Autor Claudio Geraldo | Data 18 de abril de 2019



Dostoievski, o atormentado de Deus, escreveu uma carta à baronesa Von Wizine, na qual expressa toda a sua busca: “crer que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n’Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade.”

 

A Semana Santa que se aproxima é um convite a entrar na íntima experiência do Senhor que assume a Cruz com determinação, na certeza de que o Pai tudo acolhe e transforma.

 

A Cruz é expressão do amor de Deus pela humanidade. Ela é o sinal supremo do amor, é a resposta à necessidade que todo ser humano sente de ser amado.

 

Diante da Cruz – e a partir da Cruz – o ser humano é convidado a cultivar e promover a obra do discernimento, como exercício para formação da consciência. Isso requer o empenho de uma vida, na qual se aprende a cultivar os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, assumindo os critérios das suas opções e da sua atividade (Fl 2,5).

 

Não existem receitas prontas! Certo é que diante das inúmeras possibilidades que o tempo oferece, é necessário “submeter os próprios fatores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos outros, nem entrem em oposição entre si, absolutizando-se e combatendo-se mutuamente. O mesmo se diga dos fatores negativos: não são de rejeitar em bloco e sem distinções, porque em cada um deles pode ocultar-se algum valor que espera ser liberto e reconduzido à sua verdade plena” (Papa Francisco).

 

A Cruz diz quem é Deus. É expressão máxima de um gesto de salvação, gesto de amor sem reservas. Ela não é apenas um símbolo religioso; é também um protesto contra toda forma de injustiça e mostra que se pode viver em comunidade num espírito de reconciliação. Na Cruz e no Crucificado se pode descobrir que se salva quem compartilha a dor e se solidariza com o que sofre.

 

Em tempos complexos e complicados, em situações de incertezas e dúvidas, de radicalismos e polarizações é urgente resgatar a dimensão da Cruz e a necessidade de discernimento diante dos desafios que se impõem. De outro modo a tragédia pode encontrar lugar e o absurdo se impor.

 

Dom Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre

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