Apostar na Palavra

Autor Claudio Geraldo | Data 27 de setembro de 2018



O dia 30 de setembro, memória litúrgica de São Jerônimo (340 – 420 dC), para os católicos, é o Dia da Bíblia. São Jerônimo foi o responsável pela tradução da Sagrada Escritura para o latim, o que facilitou muito o acesso aos textos sagrados. É dele a conhecida expressão: “Quem ignora as Escrituras ignora o poder de Deus e sua sabedoria, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”.

 

Compreendemos, hoje, com clareza estas palavras de São Jerônimo. Uma das linhas fundamentais da ação evangelizadora é a “animação bíblica da vida e da pastoral”. Como nos diz a Exortação Apostólica Pós-sinodal Verbum Domini: “Não se trata simplesmente de acrescentar qualquer encontro na paróquia ou na diocese, mas de verificar que, nas atividades habituais das comunidades cristãs, nas paróquias, nas associações e nos movimentos, se tenha realmente a peito o encontro pessoal com Cristo que se comunica a nós na sua Palavra” (n.73). Em nossas comunidades insistimos nisso: nenhum católico ou família sem a Sagrada Escritura; nenhum encontro comunitário ou pastoral sem a Sagrada Escritura; nenhuma oração sem a proclamação e a acolhida da Palavra; nenhuma Paróquia sem um bom curso de bíblia; nenhuma tomada de decisão sem antes ouvir e acolher o que a Palavra tem a dizer.

 

A própria Escritura está cheia de personagens que testemunham a importância da Palavra. Ao profeta Ezequiel, Deus diz: “Criatura humana, come o que tens diante de Ti! Come este rolo e vai falar à casa de Israel” (Ez 3,1). A Palavra acolhida, estudada, meditada forma o cristão.  Quando, além de aprofundar os aspectos linguístico e exegético, nem sempre fáceis, nos abeiramos dela com coração dócil e orante, permitimos que ela penetre a fundo os pensamentos e sentimentos e gere uma nova mentalidade, o que Paulo chama de “o pensamento de Cristo” (1Cor 2,16). Nela estão fundamentados os valores, as balizas, para o caminho cristão. Carlos de Foucauld dizia: “Temos que ler e reler o Evangelho sem parar, de maneira que tenhamos o espírito, os fatos, as palavras e os pensamentos de Jesus diante de nós, a fim de que um dia possamos pensar, falar e atuar como ele o fez”.

 

O Papa Bento XVI nos apresentou três critérios para interpretar a Escritura no mesmo espírito com que foi escrita, evitando assim, fundamentalismos e subjetivismos, que adulteram o seu sentido. Primeiro, interpretar o texto tendo presente a unidade de toda a Escritura; segundo, ter presente a Tradição viva de toda a Igreja; terceiro, observar a analogia da fé (cf. Verbum Domini, n. 34).

 

Algumas atitudes nos auxiliam a acolher e apostar na Palavra. A primeira é a sensibilidade em relação à Palavra. Como o Profeta Jeremias: “Ao encontrar palavras tuas, eu as devorava. Tuas palavras eram meu contentamento e alegria de meu coração, porque teu nome é invocado sobre mim, Senhor Deus Todo-poderoso” (Jr 15,16). Nenhuma palavra é mais importante do que a Palavra de Deus. A segunda atitude é a familiaridade com a Palavra. A familiaridade brota da proximidade, do alimentar-se cotidianamente. Nisto ainda precisamos crescer, até que sintamos a necessidade da “Palavra nossa de cada dia”. E a terceira atitude é a docilidade à Palavra. Acolhê-la com humildade. Reconhecer que ela tem autoridade sobre minha vida. Reconhecer sua soberania. A docilidade à Palavra faz com que ela se torne critério de discernimento em geral e ponto de referência específica das próprias escolhas.

 

Então, podemos apostar na Palavra, como Pedro disse a Jesus: “Pela tua Palavra, vou lançar as redes” (Lc 5,5). Ou como Maria: “Faça-se em mim, segundo a tua Palavra” (Lc 1, 38).

 

Dom Adelar Baruffi
Bispo Diocesano de Cruz Alta (RS)

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