A busca por sobrevivência dos imigrantes venezuelanos

Autor Claudio Geraldo | Data 2 de março de 2018



Boa Vista (RR), 5 horas da manhã, em frente a Policia Federal (PF), uma fila extensa, são venezuelanos aguardando para dar entrada a regulamentação dos documentos. Nas praças, debaixo das árvores, muitas pessoas dormem ao relento. Próximo a rodoviária, debaixo de uma pequena árvore, entre tantos imigrantes, um casal com duas crianças está sentado, como que vigilante. Diante deles uma pequena mala e o sol que começava a nascer.

 

Na estrada que liga à fronteira Venezuelana, com frequência encontra-se imigrantes sob o sol de 40 graus, percorrendo o trajeto para chegar a Boa Vista. No fim da tarde o grupo que marcha rumo a capital de Roraima é maior.  Na fronteira, no posto da Polícia Federal o fluxo de pessoas é intenso. Segundo a PF, 80% são venezuelanos chegando ao Brasil. No total o movimento migratório gira em torno de 1200 pessoas por dia.

 

Abrigos provisórios em Pacaraima (RR). Fotos: Felipe Larozza

Em Pacaraima (RR), o abrigo de passagem que acolhe o povo indígena Warao foi preparado para receber 190 pessoas, mas hoje abriga 500. Dessas, 200 são crianças. A mãe de 15 anos, pálida e muito magra, sem força no falar está deitada na rede com os gêmeos de dois meses. Os pequenos aparentam recém-nascidos. O jovem pai Worao está no abrigo há três meses. Ele imigrou com o filho de 8 anos. Com lagrimas nos olhos conta que esposa faleceu, os pais também, e por não ter comida em seu país veio ao Brasil com o filho e uma irmã. “No Brasil a situação está bem melhor para nós”, disse.

 

A alimentação chega ao abrigo duas vezes por semana. A distribuição é feita por famílias. Eles guardam em pacotes e sacolas próximo às redes onde dormem. O preparar da alimentação é improvisado no pátio. Cada família faz um pequeno fogo, improvisa as panelas para o cozimento. São centenas de fogos e as famílias ao redor esperam a comida. Eles optam por uma alimentação diária, isso para que possam garantir uma refeição por dia até chegar a próxima distribuição de alimentos.

 

Há muitos voluntários que procuram amenizar o sofrimento dos imigrantes. Mas não têm dado conta. Padre Jesús López Fernández, de Pacaraima, oferece cerca de 800 cafés da manhã, diariamente. Para muitas pessoas é a única refeição do dia. Igreja Católica, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e os Missionário da Fraternidade Federação Humanitária Internacional têm somado na acolhida aos imigrantes.

 

Ação cristã e humanitária – A Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza a partir de ontem (28) em Pacaraima e Boa Vista a “Missão Fronteira Venezuela” e permanece até 4 de março de 2018. O objetivo é conhecer in locu a situação que envolve a imigração na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, em especial verificar a ocorrência do tráfico humano e elaborar um documento de análise e proposição acerca das contribuições que a Igreja pode oferecer, em termos de incidência, assistência e denúncia.

 

Igreja coordena roda de conversa com organizações humanitárias.

A Comitiva passou o dia em Pacaraima. O bispo de Roraima, dom Mario Antônio, afirma que a CEPEETH “traz muita esperança tanto para a diocese de Santa Elena [cidade venezuelana] quanto para nós de Roraima no sentido de promover e integrar esses nossos irmãos e irmãs. Essa visita é um momento de unção com o óleo da alegria, da ternura e da confiança e do fortalecimento para nós”, disse o bispo.

 

Para a colaboradora da CEPEETH, irmã Rosita Milesi, “a visita da Comissão visa reunir informações e levar uma percepção mais clara que se passa aqui, dos grandes desafios que há, os grandes problemas que os imigrantes enfrentam. As explorações a que são submetidos e como depois apresentar e debater a implementação de ações para fortalecer a ação da Igreja e a presença da CNBB aqui apoiando tanto a Igreja local como outas iniciativas contribuem para dar uma resposta de carinho de acolhida a esses migrantes, combatendo a xenofobia, a discriminação e até as medidas governamentais que são restritivas para que essas pessoas tenham uma acolhida minimamente digna.

 

Nossa visita quer sobretudo olhar o tema do trafico humano e como conseguir informações mais precisa para dar visibilidade e essa problemática”, conta a religiosa. “Os migrantes não são perigosos, mas estão em perigo”, papa Francisco.

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